terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sem ser, vais sendo


Amava viver nas árvores

E sentir o teu respirar.

Ver o vapor das águas

E reflectir-te no luar.

Com cuidado,

Subiria os troncos

Para ter-te a meu lado,

Nestes caminhos longos.

É tão grande a magia

Que me oculta os teus passos.

O que apenas queria

Era cair nos teus braços.

Se nuvens tentassem impedir

A tua boca olhar,

Eu mergulhava sem emergir

Preferindo me afogar.

Contornando a altura

Sem vertigens atingir

É chegada a altura

De te pedir para partir.

Não caias no nevoeiro

Faz-me um único sinal

Capaz de parar o mundo inteiro.

Este é o meu amor fatal.

Sílvia Gonçalves



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O teu julgamento

Começou a caminhada da crucificação…
Houve-se passos pesados…
No meio da multidão estás tu.

Diz-me porque permitiste…
Porque não te revoltaste…
Pensaste mesmo que não te iria resgatar?

Ainda longe, senti o teu cheiro…
Diz-me porque preferiste ficar só…
O caminho é duro, mas estou aqui.

Ouves? São vozes que te elevam ao céu…
Mais que humano és beleza sem igual…
Falaste me com um gesto.


Percebi…
O murmúrio findou.

Sílvia Gonçalves

Ilusão



Quando começo a voar
Olho o mundo sem querer,
Com um triste baloiçar
Que faz a paisagem tremer.

Há um espírito que arde
Onde as montanhas secam.
Não é à lua que cabe
Diluir as almas que pecam.

Quando estou no céu
La bem alto, a voar
Procuro o coração que é teu
E que te quero tirar.

Quando os meus pés levantam,
Devagarinho do chão,
Não existe maior pranto
Que sobrevoar a ilusão.

Ao olhar para a Terra
Vejo uma esfera pequena
Que anda sempre em guerra
E quase não cabe neste poema.

Sílvia Gonçalves

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Gargalhar força

Tenho mesmo de escrever.

Perdoem-me perder estes minutos.

Tem de ser.

Mesmo!

Os dias não têm dado tréguas

E só escrevendo e ouvindo

Esta música relaxante

Me permito voltar a ser

Eu mesma!

Uffff

Que tormento tem sido.

Não tirar os olhos dos papéis.

Mas foi o que escolhi!

Um monte de insatisfação

Apodera-se.

Não vou deixá-la vencer!

Olhar em frente e sorrir

Sempre!

Sorrir, sorrir, sorrir

A minha única defesa eficaz!

Sílvia gonçalves

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Reflictam para vocês mesmos

Se há momentos em que abro os olhos e de seguida os fecho quase sem pestanejar? Claro que há.
Se há alturas em que inspiro mas respiro de seguida, quando o que queria era reter o ar mais uns segundos? Sim, já me aconteceu.
Se gostava de ter o cabelo aprisionado quando o vento faz dele o que quer? Sim, imensas vezes.
Eu não sou de ferro! Ninguém o é.
O que nunca fiz foi afectar alguém propositadamente. Isso não. Coisa feia de se fazer. Cai mal. Isso não.
Mas já matei muitas formigas e seres semelhantes.
Sou uma alma boa mas desconcertada. Aqueles seres VIVOS estavam lá (as formigas) mas apeteceu-me.
Se fosse ao contrário não gostaria, certamente. Mas e agora?
Afinal até que ponto somos humanos ao não danificar os da nossa espécie intrometendo-nos nas demais?
Vá, reflictam para vocês mesmos. Somos o quê afinal e para que fins nos movemos?

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Sou feita de palavras e de imaginação



Ao tentar despregar-me da poesia
Correm-me lágrimas pelo rosto,
Pois ela é a minha alegria,
O meu maior pressuposto.

Se me obrigassem a parar de sonhar
Romperiam com o meu mundo
Porque quando estou a divagar
Busco o meu sonho mais profundo.

As frases correm-me na alma
Ainda que me revolte contra os papeis.
Elas conferem-me alento e calma
São as minhas amigas fiéis.

Proclamo o que sinto,
Disso ninguém pode duvidar.
O meu maior labirinto
É feito de imaginar.

Escrever é o meu maior bem.
É assim que vivo a vida,
Deixando de ser simples refém
E passando a pessoa activa.

Amo as virgulas, os pontos e as palavras.
Quem mas tira, tira-me o querer.
São o meu único conto de fadas
E permitem-me escrever!

Sílvia Gonçalves



Quando corríamos pela areia e te escondias nos rochedos era sonho, nada mais. Na realidade nem chegamos a pisar a praia.
As vezes que me pegavas ao colo era ilusão, nem chegaste a tocar-me.
O tempo que gasto a pensar em ti nem tempo se chama. É um conjunto de filamentos perdidos que para nada serve. Nada mais.


Sílvia Gonçalves

Ser estranho

Se abro ou fecho a porta? Não sei.
Os suaves recantos que estilhaçam a cada pisada tua são feitos de vidro. Pareces pisá-los como quem se abraça na areia dourada do mar.
Tu não tens noção da realidade. Não pareces saber que o que hoje desperdiças podes não mais alcançar no amanhã.
Se me deito à noite é porque sei que há um dia pronto para amanhecer horas mais tarde. Tu nem nisso reflectes.
Deves ser um corpo celeste com vida porque deste mundo nada sabes. Chegaste a mim por entre as estrelas ou caíste no Oceano? Podes revelar.
Eu não preciso esconder-me. Sou humana! Mas tu não.
Uma vez observei-te a pintar. Pintaste uma galáxia perdida. Não sabias que eu estava lá mas deixaste cair o pincel. Também sentes a presença humana? Afinal de onde vieste?
Um dia hei-de saltar uma vedação só para ver se me salvas, se despertas dessa bola que te envolve e vens viver o mesmo mundo que eu.
Se me salvares ficaremos vivos, se não o fizeres pelo menos vai lá depois. Limpa-me os ferimentos, nem que seja com as tuas lágrimas. Isto é, se chorares porque nunca te vi transmitir emoções.

Sílvia Gonçalves

A minha água salgada

Sou um mar de ideias

E todas elas são imaginação,

Que quando se cruzam com sereias

Explodem sabor e paixão.

Vivo a pensar

E assim passa o meu tempo,

Que é feito de mar

Onde se esconde o sonho do momento.

Ostras são as minhas percepções

Que velam pérolas preciosas,

Formulam composições

E músicas melodiosas.

Sou feita de algas flutuantes

Que não chegam ao profundo,

Preferem ares mais sibilantes,

Preferem admirar o mundo.

Tenho ainda detritos de marés

Que não chegaram a rebentar,

Evitando molhar os pés

De quem corria à beira mar.

Sílvia Gonçalves

A separação

Houve uma viagem apenas que os fez despertar. O que sentiam duraria apenas o tempo de uma borboleta ferir uma asa.
Acordaram.
Separaram-se.
Choraram. Nunca antes se tinha visto um leão chorar, pelo menos do jeito que este chorava. Um jeito de cordeiro que perde o resto do rebanho. Eis a grande descoberta! -"Jeito de cordeiro". Seria possível? Ele, a pouco e pouco, estar a fundir-se nela, perdendo a sua própria identidade?
Não era concebível, mas se estivesse a acontecer poderiam voltar a enlaçar os corpos um no outro como quem busca calor numa noite de céu limpo, em que é possível contemplar as estrelas.

Sílvia Gonçalves

sábado, 19 de dezembro de 2009

A temperança

Davam tudo por aquilo que julgavam ser real. Pobres dos que são moles do coração pois para eles a vida é dura.
Reforçavam os sentimentos. Menosprezavam o isolamento.
Tinham origens opostas e foram cruzar-se alcançando a união. Mas não era possível continuar a durar. Como sustentar forças contrárias? Como controlar o incontrolável? Não, não podia ser. Tinham de acordar.


Sílvia Gonçalves

domingo, 6 de dezembro de 2009

Vem

Vem comigo,
Senta-te ao meu lado.
Vamos juntos ver o mar,
Correr pela areia.
Vem comigo,
Desprende-te da luz solar.
Vamos ficar na noite.
Vem.
Vem comigo
Que o tempo não perdoa.
Não permitas o passar das horas
longe de mim.
Vem.
Vem comigo.
Sílvia Gonçalves

O envolvimento

Estavam mais próximos que nunca. A distância era algo que não conheciam.
Em vez dele ter vontade de a morder, desejava acariciá-la e apertá-la contra o peito.
As faíscas que emergiam eram resultantes de um sentimento positivo. Não havia espaço para o repúdio nem para a maldição.
Escreviam a sua própria história, alheios ao mundo. Se o tivessem em conta, já não estariam enlaçados mas sim numa dura luta pela sobrevivência. Afinal, ela era um cordeiro e ele um leão.

Sílvia Gonçalves

sábado, 5 de dezembro de 2009

A novidade

Sim. Ela tinha algo dele nela. Mas ela era um cordeiro e ele um leão.
Como podem dois seres tão distintos, de naturezas tão diferentes se fundirem num só? Ninguém o sabia.
Enquanto ela se resguardava da aventura ele atravessava florestas. Enquanto ela dormia ele rugia. Enquanto ela queria sorrir ele queria soltar raiva.
Ele matava. Ela morria.
Existirá um sentimento sem fronteiras, capaz de superar a própria natureza que nos reveste?
Sílvia Gonçalves