sexta-feira, 7 de maio de 2010

a 2007

Acolhera-nos aqui,
falaram de família
não percebi.
Até que a faculdade
se transformou em vontade.
já compreendi.
Esta casa de laranja
com o orgulho na lembrança,
que juntos os faz ir além.
Pois fa-nos descobrir
que a tradição é p'ra cumprir
e que mais do que nós somos um.
Vocês de capa traçada
mostram aquilo que um dia
queremos ser.
Com o preto, nossos ídolos,
levamos no pensamento
cada momento.
Chegou o dia de crescer
e caloiro deixar de ser.
O tempo não volta a trás.
Mas continuaremos a mostrar
seja a chorar ou a gritar
que temos mesmo orgulho em pertencer.
É o nosso orgulho
de diospiros a crescer
que nos ensinaram a ter.
E o vosso exemplo
vamos imortalizar.
Somos mais do que mil somos um.
E vamos manter
este modo de viver
e o laranja comigo trazer.
Nestas sessões de praxe,
onde tudo isto nasce.
Doutores: EU AMO VOCÊS!
2009

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Misticismo



Foi saltando
Até alcançar movimento.
Nesse teu corpo eu comando
Todo e mais algum pensamento.

Desviou-se da tormenta,
Acalentando o amanhecer,
Sendo uma pérola magenta
Duma cor qualquer.

Voltou ao mesmo refrão
Sem notar a altivez
Do seu pobre coração
Que bate de lés a lés.


Sílvia Gonçalves

domingo, 18 de abril de 2010

Só te resta a voz



Suaves e cintilantes copos de cristal pousam nos teus finos e delicados dedos. Não és tu que neles pegas. Eles pousam em ti.
Vestidos de seda contornados a renda deslizam-te pelo corpo. Não és tu quem os veste. Eles caem sobre ti.
O teu leito incita-te a dormir. Não és tu que nele te deitas, é ele que se chega junto a ti.
Nasceste para ser princesa. Nada fazes. Tudo está destinado a envolver-te e a desvendar os teus mais velados segredos.
Há um misticismo em ti. Em tudo que pensas. Em tudo que és.
Apenas uma coisa em ti é movida pelo teu ser, sem precisar de vontades alheias: a tua voz. Cantas arrepiantes melodias que fazem ondear a água do pequeno lago do teu jardim.
A maior força dos homens contínua a ser a sua voz!


Sílvia Gonçalves

sábado, 3 de abril de 2010

Prefiro gravar


Recordar não é necessariamente mau. Se fizer da realidade um livro de recordações vou permanecer enclausurada numa gaveta coberta de pó e marcada pela velhice.
Inovar a cada dia não é necessariamente bom.
Restam dúvidas que nos levam a questionar o nosso fundamento existencial.
Às vezes custa, outras não.
Ressaltar paredes e becos faz crescer.
Arranhar as nuvens com a ponta dos dedos dos pés faz rir.
Fazer cascatas de choro faz florescer uma nova floresta.
Escorrer sangue numa pedra limpa não é sujar, é purificar.
Tocar harmonias românticas faz contorcer os corações e estremecer a alma.
Todas estas sensações são reversíveis e passam a cada segundo no diapositivo da nossa curta e melada vida.
O que, com gozo, gosto de fazer é deixar as fotos de lado e usar gravações. Não é que o som e o movimento me fascinem incomensuravelmente. Mas é pelo prazer de fazer batota com a vida que teima em fragmentar todos os momentos quando o que quero é que neles permaneça a continuidade.
Vida, não és só tu que brincas!

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Às vezes sim, às vezes não


Esta noite sonhei um passado que julgava apagado.
Foi tão doce e real.
Será que a fortaleza de um sentimento forte nunca se pode desvanecer?
Quando abri os olhos, desejei contornar a situação com um breve suspiro.
Será que para sempre haverá pedacinhos de ti em mim? Talvez a teia que me tenhas lançado ainda não se tenha descosido na plenitude.
Sei que em ti já não existo. Talvez se os nossos olhares se cruzassem não fosse bem assim. Mas…ainda bem que não cruzam. Não quero voltar a sentir o peso de te apagar.
E a sensação do teu abraço ainda persiste em mim. Talvez para sempre exista no meu ser fragmentos do ser que foste e já não és. Mas não quero saber. A sensação até é boa. Pena ser irreal.
Mas, para me consolar, sinto orgulho no que em mim ainda existe. É sinal que não foi em vão tudo o que, um dia, no mais sentido abraço, te prometi.


“E uma lágrima cai, a cada beijo teu. Esta noite sou, dona do céu. Eu não sei quem te perdeu.”

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 26 de março de 2010

Um mistério qualquer



Tão depressa se deseja
Como de repente se abandona.
O que se serve na bandeja
É uma inquietude medonha.

Dizem que é amor,
Dizem que é paixão.
Há quem lhe saiba o sabor.
Há quem viva na escuridão.

Mais que um turbilhão de ideias
E um misto de sensações,
Na barriga sentimos sereias
E no peito tubarões.

Recorrendo amargamente
À doçura deste enleio,
Não sou forte nem valente,
Nem sequer tenho receio.

Sílvia Gonçalves

Meninos de ninguém




Meninos de fome,
Que vestem maus tratos,
Com corações sem nome.
De dor e guerra fartos.

Não é feliz vossa vida.
Não é suficiente a união.
Estais em constante partida,
Sem ter quem vos pegue na mão.

Sois meninos sem amor,
Desprovidos de amizade.
Sois frutos sem sabor.

Nos olhos nada vos brilha.
Andais cá sem andar.
Vítimas desta armadilha.

Sílvia Gonçalves

Comboio da minha vida


Neste comboio da vida
Onde, por vezes, fico abarcada
Tentando descobrir a saída
Ou, apenas, a carruagem adequada
Viajo incessantemente,
Numa procura imensa
De alegria que dure para sempre
E de luz perpétua e intensa.

Se embato sem querer
Foi o meu destino que prometeu
Numa circunstância eleger
Um comboio como o meu.
Desde que o choque não abale
Quem comigo possa trazer
O meu destino que fale
Justificando esse embater.

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ele era um pintor...



Ele acariciava a tela com o pincel embebido na tinta mais doce que tinha.
Espreitava, pelo lado do vaso posto na varanda, a sua paisagem. Era uma paisagem humana que se movia ao som do bater suave do coração.
O retrato deste jovem pintor era uma mão a alisar fios de cabelo castanho que percorriam um rosto inquieto.
Era a altura de mudar de cor. Embebeu o pincel mais fino de todos na tinta mais escura. Objectivo: demarcar a escuridão com simplicidade.
O retrato movia-se o que dificultava a tarefa do pintor. Mas cada gesto era retido na sua mente a fim de ganhar cor. Talvez outra.
Começou a chover repentinamente e o vaso agitou-se com o vento e a tarefa do pintor ficou ainda mais complexa. Mas enquanto o que pintava permanecesse naquela outra varanda, do prédio em frente, o exercício da arte era possível.
Porque não pintar as formas torcidas da varanda juntamente com as plantas que a envolvem? Passava tudo por uma questão de inspiração.
Não era a varanda, inerte e fácil por isso, que interessava ao pintor. Também não era a dona do cabelo que lhe chamava a atenção. Era apenas aquele cabelo castanho e aquela mão pálida que de tão delicada chegava a meter dó.
Ele queria pintar a realidade. Para quê imaginar uma rapariga loira de cabelo brilhante e mãos carnudas? Não era essa imagem que ele via.
Pintou até os dedos desprenderem o cabelo e a mão cair sobre o peito. O cabelo completamente livre misturou-se com os tons do pôr do sol que atravessavam a avenida e adquiriu a mais bela cor de sempre. Porém, já era tarde e a rapariga entrou no quarto deixando um rasto de cortinas a esvoaçar.
Mas o pintor reteve aquela cor indefinida de cabelo misturado com o pôr do sol na memória e, misturando todas as cores que tinha, terminou a sua tela.
Uma tela distinta das demais……….porque pintou a realidade.


Sílvia Gonçalves

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O nosso momento



Numa noite, dançamos apertados
Passos descompassados,
Era pura paixão.
E, sorrindo,
Fizeste parar o tempo,
Num doce movimento
Que quase me emocionou.

E dançamos pela noite fora
Até a hora de ir embora
Como um real casal.
E tu viste, o meu ser mais profundo
Deste-me a volta ao mundo
E apertaste-me junto a ti.

E as ondas,
Quebraram nessa noite.
O teu corpo dói-te
Por estar tão junto ao meu.
Paraste. Apertaste-me contra o peito
Fizeste de mim teu leito
Mas que momento especial.

E um beijo solta-se de qualquer jeito
Foi um beijo imperfeito
Não era para acontecer.
E assim, calados olhamos a lua
Com a alma toda nua.
Foi o nosso viver.

Sílvia Gonçalves

Versos soltos




Era um rio a arder
Onde as algas fumegavam
E, no espaço do meu ser,
Os teus olhos flutuavam.

Era, realmente, tormenta
Que agitava a água da nascente.
O que importa é a vida breve e sedenta,
Não faz mal não ser para sempre.

Atravessando a ponte
Fui ao outro lado,
Subi o cume do monte
Num paço largo e ponderado.

Não me dou por satisfeita.
Um romance igual
É a mais triste receita,
O pior vinco do mal.

Falas pouco
Mas quando falas, marcas.
O meu coração? Dou-to.
Não é relevante o que com ele faças.

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Amor é fogo que arde sem se ver

Este é o único poema que se encontra neste meu espaço que não foi por mim criado. Coloquei-o aqui por ser dos meus sonetos predilectos e por ter um significado especial.
Desfrutem de um exemplar de verdadeira poesia..

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões

Silêncio a mais?


Enquanto não falo, escrevo.

Enquanto não toco, suspiro.

Enquanto não luto, tenho medo.

Enquanto me refúgio, procuro abrigo.




Cada vez que me queres, reclamas.

Cada vez que sonhas comigo, procuras.

Cada vez que me desejas, me chamas.

Cada vez que sufocas, cometes loucuras.




Sílvia Gonçalves

Análise ao amor


O sentimento de amor vivido por muitas pessoas reparte-se por gavetas fechadas e papeis rasgados. Se não fosse o dia dos namorados, muita da gestão desse amor nunca seria feita. Nunca iriam parar aos sítios certos os momentos adequados e jamais os carinhos e afectos rumariam até aos locais ajustados.

Para muitas dessas pessoas, esse dia é uma forma de recorrerem à mesma loja de sempre, a fim de comprar as mesmas rosas de sempre, com o mesmo aroma de sempre e envoltas no mesmo tom de sempre.

Regra geral, o dia de S.Valentim obriga os casais a embrulhar o desprezo num papel apelativo, tentando simular o romance perfeito e esperado.

As horas passam, os dias passam, os anos passam…tudo parece saturar.

Mas porquê que o amadurecimento não parece ser compatível com amor? Porquê que o coração não se enruga com o entrar na velhice? Porquê que as pessoas não permitem uma proporção de amor por entre anos e anos de convivência?

Não faz sentido alguém deixar os elogios à porta, pensando que as pessoas já os adivinham. Eles são sempre necessários. E não vale evitar o perdão com a desculpa de que os erros e trapalhadas já se tornaram hábito.

Não faz sentido algum parar de olhar nos olhos como outrora, ansiando a mais doida proeza. Não devia ser permitido parar de sonhar, olhando todas as situações como previsíveis e, por isso, despidas de magia.

Devia ser proibido o “há tanto tempo que já te conheci” e obrigatório o “ainda bem que te conheci”.

Tudo bem que com o passar do tempo o coração pode deixar de ser vermelho. É normal que aconteça. Mas porquê que ele não assume várias cores? Cada experiência passada assumia um tom e, assim, o amor não se perdia e ia-se enriquecendo cada vez mais.

E também já não faz sentido pensar que o amor tem de ser vivido à beira mar numa noite de luar. O amor pode e deve ser sabedoria mais que aventura, para poder sobreviver no tempo e enraizar - se no coração.

Quanto àquele tipo de amor, se é que este pode ser categorizado, que só se alimenta na noite, na cama, tenho sérias restrições perante ele. Pois a cama pode assumir o estatuto de um palco, onde apenas se finge, não se vivendo a plenitude do amor. Curiosamente, a cama até está mais elevada relativamente ao chão, tal como um palco.

Para concluir, penso que o amor é como o humor: só aparece com o passar dos anos. Só depois de muito se aprender é que estes têm lugar na nossa vida.

Amar tem de ser mais do que dar e receber. Amar talvez apenas seja ser e ser-se, de modo sincero.



Sílvia Gonçalves



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Algumas poucas coisas que me avassalam a alma

Aprendemos teorias que a vida adora contrariar.
Seguimos regras que a vida quebra de modo constante.
Afastámo-nos de quem devemos e a vida teima em unir-nos.
Juramos ser “para sempre” e a vida mostra-nos o “fim”.
Colocámos de lado o “jamais” e a vida (sempre a vida) atira-nos para o que evitamos.
A nós, o que nos cabe afinal?

Sílvia Gonçalves

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Embora doa

Embora doa

Segui os teus passos.

Estive quase a desistir.

Enlacei-me nos teus braços,

Nem dei pelo meu existir.



Embora doa há sempre mais,

Mais que o simples ir e voltar

E perder-me nos teus traços,

Nesse teu modo de andar.

Fugi dos embaraços.



Por mais que doa

Tenho fé, quero ainda acreditar,

Sucumbir essa maré.

Eu quero fluir no teu mar.

Permanecer de pé.



Embora doa,

Vou sorrir.

Não existes para mim.

Vou quebrar ou vou partir,

Mas dar-te-ei um fim.


Embora doa…



Sílvia Gonçalves



A ironia é ambicionar serem sonhos algumas das minhas realidades. Coisas más que vivi, bem poderiam ter sido pesadelos. Mas não. Como sempre, não posso escolher o destino. Sopro ao de leve para mudar o seu percurso. Às vezes resulta, outras não.
São pétalas derrubadas as minhas investidas. Mas nem sempre. Já alcancei o pedestal saltando de pluma em pluma. E em saltos diversos fui ancorar no mar mais profundo.
Houve ainda aquela outra vez em que, suspensa num balão de cristal fui derivar a uma ilha. Mais tarde, esta imergiu. Ou melhor, o Oceano degolou-a.
Mas o que não me sai da memória foi o instante em que escorreguei na lama das artérias da minha mãe. E não bastou o equilíbrio que atingi lá no fundo, acabando por sair para o exterior. Esse sonho, essa dádiva, essa realidade resolvi chamar de: o meu nascimento.


Fim

Sílvia Gonçalves

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mas como não detenho em mim o poder absoluto do controle, acordei. E aquilo que, inicialmente, eram simples formas e depois corpos revestidos a cera que se libertaram não passaram disso.
Já é cruel viver sonhos em detrimento da realidade mas não os poder findar agrava ainda mais a situação.
Para quê que sonho? Porquê que sonho? Para quem são dirigidos os meus sonhos?
Só incógnitas, nada mais que isso.


Continua…



Sílvia Gonçalves