sexta-feira, 15 de julho de 2011



Cavalgando incertezas
Sob montanhas de ilusão
Lanço-me nas profundezas
Da lava ardente de um vulcão.
Eu sei bem que quero ir.
Tenho essa convicção.
Cavalgar sem partir
Mas partir-te o coração.
Há loucuras que afastam
E fazem tremer o mar,
Provocam ondas que desgastam
O doce verbo amar.

Sílvia Gonçalves

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pensar custa



Um silêncio moroso. Uma mão estendida. Um grão de areia dentro do sapato que incomoda, magoa, chega a irritar. Proveio da erosão do teu pensamento, porque era Verão. No Inverno, encontras flocos de neve nas mangas do casaco, que derretem e não dás pela sua presença. Resultam do descongelamento da tua ilusão.
Conclusão: imaginar não custa; pensar desgasta, consome, chega a corromper…incomoda.


Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 21 de abril de 2011

(Não)Aguento mais

Deambulo naquela ponte de madeira com buracos do tempo e ventos do infinito que quase me fazem cair. Mas aguento um pouco mais.
Salto para a relva molhada do orvalho e escorregadia do pólen mas mantenho-me firme ao chão. Aguento um pouco mais.
Vou pela rua que chove com um chapéu que voa mas a chuva não me molha. Eu aguento mais.
Corro num prado deserto a fugir de lobos que me cercam mas não me prendem. Aguento ainda mais.
Atravesso uma auto-estrada sem olhar mas os carros não me atingem. Aguento mais e mais.
Dou passos cautelosos, medindo as esquinas estreitas e o ar envolvente e cai sobre mim uma árvore. Não aguento mais.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Quando falta o "eu" surge o "outro"

Fecha a porta, se não queres ver ninguém. Nunca a abras o número de vezes correspondente aos lugares disponíveis que tens no coração. Receio que não sobre nenhum deles para mim. Receio que a luz que de ti emana não seja suficiente para ver os locais que piso. Receio ter de recorrer a uma candeia, que tem um brilho excepcional e subtil. Mas não é o teu.
Se, porventura, os nossos enredos não mais se cruzarem, não entristeças por isso. Deixa o fluir das horas arrastar os motivos e arrastar-nos a nós mesmos para uma vala comum, onde a nossa imortalidade se torne um doce acordar.
Os gestos sincrónicos que esboçamos distraidamente são pedaços de um tecido macio que nos envolve os corpos providos de energia. Não é a energia que vem do sol nem de qualquer outro estado da Natureza, é a que vem da nossa mente e se propaga pelos feixes dos sentimentos. Se escolhêssemos as intuições como fazemos com a roupa que vestimos todos os dias, a vida diluir-se-ia em fragatas de miséria e vazio.
Existe sempre alguém, em algum lugar, no mais oculto recanto, pronto a estender-nos a mão e a cuidar de nós como quem cuida de si mesmo. É a lei da solidariedade humana. Do olhar para o outro com a mesma ternura com que nos olhamos as espelho. Com mais ternura ainda. Não nos foi dada oportunidade de escolher o que somos, por isso, temos a capacidade de amar os outros, como forma de colmatar essa pequena lacuna da génese humana. Ao nos deixarmos cativar por alguém tudo em nós assume um formato duplo que converge para a unificação.
O amar erradica a consciência que nos pertence. Passamos a ser comandados, orientados, sofrendo alucinações terríveis que nos oferecem a mais pura melodia. Acabamos os dias a vislumbrar o luar como a criança que vê, pela primeira vez, uma bola de sabão a formar-se. E se a bola é levada com o vento para longe? E se cai no chão? E se rebenta com o nosso respirar? Não há problema algum. Não seria a única bola a passar pela vida da criança, embora pudesse ter sido a mais intensa, a mais amada, a mais verdadeira.
A nós humanos, que nada pudemos contra a força inexorável do sentir, cabe-nos fechar os olhos, de instante em instante, a fim de vermos melhor. A reflexão quase nunca traz algo de novo mas assimila os factos passados, propiciando um rumo mais certo para o futuro. Este, o futuro, de sonância fechada é na realidade um infinito oceano em aberto, apto a albergar os mais diversos navios, mesmo os que naufragarão com o tempo. Pois há sempre uma nova maré. Maré de luz, maré de esperança, maré de bocejos, maré de braços abertos, maré de sorrisos, maré de pregiça, maré de dedicação…




Sílvia Gonçalves

sábado, 5 de fevereiro de 2011


Andam a deambular na alameda
Pedaços de tecido, pedaços de seda.
Eram de corpos nus que se mataram
Na penumbra da manhã
E que, despidos, lá ficaram
Onde já só resta a cor roxa e vã.
Foram amantes, feiticeiros.
Nunca real sorte o saberá.
E fragmentados ou inteiros
A sua alma sucumbirá.
Jazerão apodrecidos
Os corpos nunca intrometidos.
Abandonados na natureza ingrata,
Que mais lhes roubou que prometeu,
Escorregaram na cascata
Feita do suor que é meu.


Sílvia Gonçalves

Alianças tiradas

É sabido que as coisas nascem e morrem. Realmente elas nascem. E, de facto, também morrem.
Quando as alianças são retiradas, ainda subsiste por muito tempo a sua sensação, o seu peso, a sua forma e o seu poder, a sua carga simbólica e afectiva. Há ainda a considerar a marca literal que fica na pele. Uma pequena tira fina mais clara que a restante. Assemelha-se à pequena parte que a pessoa a ela correspondente ainda ocupa no coração. Mas, com a força inexorável do tempo, essa marca acaba por esbater-se, não se distinguindo mais os tons na pele sofrida.
À medida que essa marca se oculta, oculta-se também a imagem da pessoa que se amou. Cada vez é necessário um esforço maior para se conseguir recordá-la. Os seus traços não são visíveis como sendo bem definidos. Já para não falar do seu odor. Este apaga-se por completo e só é evocado quando um muito parecido paira no nosso ar.
As coisas evoluem e as mais velhas da vida, as que ficaram bem lá atrás, acabam por morrer.


Sílvia Gonçalves
Não me incomodam as planícies cobertas com o teu pó, nem a água que transpiras. Pouco me importa se cais e não te levantas. Se te feres e sofres.
Minto. Importa-me bastante, embora seja errado. Embora o tempo se tenha esquecido de nós. Penso em ti. Preferia não o fazer. Seria um alívio se me libertasses dos teus braços de fingir, se me deixasses romper livremente o caminho, se te esquecesses de mim sem esquecer totalmente. Eu queria apagar-te de uma só vez, de rajada, sem olhar para trás. Sem que restassem indícios cultivadores de um novo amor. Queria quebrar todas as raízes num ápice. Dói quando os sentimentos adoecem sem morrer, ficando pequenas pontas soltas. Pequenas de mais para voltar a serem semeadas e grandes de mais para serem esquecidas.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Se

Se aceitares falar comigo prometo que vou medir as palavras. Que só ousarei dirigi-las com carinho e ternura. Que não vão magoar nem deixar dúvidas. Porque, no fundo, o que quero, o que sempre quis, foi o teu bem, a tua felicidade. Se, por vezes, não parece é porque me embrulho nas sílabas e tropeço nos sentimentos.
Nem precisas falar comigo, afinal. Basta estares lá. Chega-me saber que estás presente, algures e que essa presença é real para além da imaginária que reside no meu coração, alterando os seus batimentos.
Só não aguento suportar a tua perda para alguém, por algum motivo, por determinado tempo. Não quero que sofras, por isso, também não permitas o meu sofrimento. Sei que para isso deverias saber que penso em ti, todos os dias. Mas a fachada é mais alta do que eu. E, assim, resigno-me a pequenos recortes teus quando talvez pudesse ter a tela. Mas são recortes talhados de amor e dedicação, não são meros flagras que te extraio de relance. Todo o teu ser está bem pensado dentro de mim. Tens formas e contornos bem estabelecidos pois levo os dias a delinear-te e passo as horas a cuidar de ti, secretamente. Se alguém perguntar digo que é mentira porque o amor não pode ser forçado. Não podes saber que o sinto se não o sentires também.


Sílvia Gonçalves

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Ondear da vida

Só o ondear das ondas
Pode justificar
O ir e vir
Sem nunca ficar.
Restam a areia, as algas, os rochedos
Que se associam ao sal
E afogando todos os medos
Fazem sentir-me um coral.
A água tocava-te o rosto
Quando me tentavas alcançar
E sem um barco posto
Começavas a remar.
Foram coisas que ficaram.
Eu sei lá se elas irão.
São sapatos que se descalçaram
E nunca mais pisaram o chão.

Sílvia Gonçalves

Tempo

Tempo vagabundo,
Que deambulas no escuro
Por favor, pára o mundo
E liberta o meu coração duro.

Recorre às mais frias cascatas.
Mas trava os minutos
Em que me resgatas
Desses braços tão brutos.

Teimas em ser inexorável.
Bem podias abrir uma excepção
Para que fosse memorável
O instante da minha libertação.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Um sonho

Uma sensação mais que perfeita,
Sublime e quente.
Não foi inusitada. Não foi eleita.
Foi expiração de quem sente.

Houve tentativas de controlo,
De renegar a magia.
Mas com o avanço do rolo
Cada imagem progredia.

O flash disparou.
A respiração foi breve e espaçada.
Até a lua reparou
Nesta nossa emboscada.

O duro foi acordar,
Ver que a imagem se apagou
Em virtude de estar a sonhar.
E “tudo o vento levou”.

Sílvia Gonçalves



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Tão suave.
Tão amargo.
És a chave
Da porta que trago…
Cativas e abandonas.
Temes por tanto temer.
E, assim, me pressionas
Mesmo sem saber.
É relutante este sentir
Que não pressupõe o erro.
Deixando apenas de insistir
Porque, instintivamente, tem medo.
Sílvia Gonçalves

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Os teus gestos,
A tua face,
O teu respirar,
Transformam-me as frases em versos.
Lançam-me num enlace
Do qual não me sei despegar.

Como apagar-te
Agora que te desenhei?
Como esquecer-te
Se ainda agora te recordei?

Quem atribui rosas ao amor
Deveria antes frisar
Que é pelos espinhos e pela dor
Que se costumam associar.

Sílvia Gonçalves

sábado, 13 de novembro de 2010

Forte ligação


Eram dois corpos encostados
Que sem querer, se despegaram,
Assumindo contornos desajeitados
E logo depois se abraçaram.

Não suportavam a ausência,
O calor afável e o odor
De toda aquela essência
Designada de amor.

No Outono, no Inverno, no frio
Até o tempo parar,
Viviam noites a fio
Harmonizando o respirar.

Chegavam a ser simbióticos.
Não tinham independência.
Eram de ambos os pórticos
Para alcançar a tal essência.

As palavras não eram precisas
Para a comunicação ganhar sentido
E quando suspiravam brisas
Um e do outro se faziam abrigo.

Mais que o toque e a inspiração,
Surge a cumplicidade
Que já vem da concepção
Tornando-se elo de reciprocidade.

Sílvia Gonçalves

domingo, 7 de novembro de 2010




Turbilhões de febres esquisitas
Rondam os ares da montanha,
Nos espaços em que coabitas
E escondes a tua rude façanha.

Não és feita de seda
Nem áspera como a arriba.
Transpareces entre a labareda
A tua nua cinta descaída.

O estrelar do céu
Fica coberto de pólen.
Tudo não passa de um véu
Lançado por um bravo homem.

Há defeitos. Há feitios.
Não nos podemos mudar.
Repelem-te com assobios
Mas terás o teu altar.

Sílvia Gonçalves

sábado, 6 de novembro de 2010

Possibilidades




É uma possibilidade,
A lua reduzir o tamanho.
Ficar uma mão de saudade
Pertencente a um braço estranho.

Esse braço pode ser
O ramo da árvore dos livros,
Que se lêem ao anoitecer
Até se adormecerem os sentidos.

Esse livro pode ficar
Para sempre fechado.
A criança irá chorar
Sem o seu enredo narrado.

Mas é possível que ela cresça
Se torne velha até.
E que para sempre adormeça
Bastando tomar café.

Sílvia Gonçalves

domingo, 10 de outubro de 2010

Ervas daninhas


Apareceste-me na avenida
Sem pedir licença à razão.
Fui vagabunda, página lida.
Fui pegada no chão.

Entraste sem pedir.
Se pedisses, deixaria.
Quase sempre a sorrir
Preencheste-me o dia.

Foi tudo farsa, porém.
Fui pecadora e refém.
E as tua mãos nas minhas,
Não passaram de ervas daninhas.

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


Hoje vou pintar com a luz da lua
Um quadro que dure a eternidade.
Que explique a minha boca na tua
Sem pudor, com simplicidade.

Vou pegar na mais bela cor
Para te contornar os lábios,
Renunciando todo o amor
Escrito por Camões e outros sábios.

De mochila às costas vou fugir.
Não quero ver o regressar.
Anseio longe me despir
Da roupa que me está a apertar.

Quero abraçar culturas
E sentir os odores do mundo.
Contactar com torturas
Que nos consomem a fundo.

Eu quero ser, ir e permanecer.
Respirar e dormir.
Para um dia me perder
Sem nenhum mapa a distrair.

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um local: uma vida, uma morte



Há muito muito tempo atrás, quando começaram a surgir as primeiras auto-estradas, uma família ficou sem lar. A via referida estava projectada para passar mesmo no local onde os primeiros tijolos ganharam forma, erguendo o corpo da casa dessa família. Solução? A mais simples, claro. Derrubar a dita casa, indemnizando os donos desta.
Nessa casa, outrora havia sido gerada uma criança, fruto do amor do casal que nela habitava. Estes, tristemente, deixaram o local onde deram vida aos seus primeiros sonhos, onde festejaram aniversários, natais, onde fizeram refeições intermináveis, onde descansaram ao som da aparelhagem localizada na sala de estar…
Com o dinheiro que receberam (merecido dinheiro) construíram novos sonhos, começando por um novo edifício.
Passado anos houve um acidente naquela auto-estrada. Resultado? Dois feridos graves e uma criança morta. Ironia do destino, se recuássemos até ao tempo da casa, viríamos que o local do despiste ficava precisamente sob o que antes havia sido um quarto, onde havia dormido um casal, onde havia sido idealizada uma criança, onde fora efectivamente consumada.
E como que se de uma moeda se tratasse, aquele local assumiu duas faces: uma de vida e uma de morte.
Sabemos lá o que é para sempre, o que nunca sairá do lugar…só uma coisa podemos tentar presumir: o amanhã será uma nova experiência. Não é relevante de que cariz seja, importa que seja e nada mais.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Tu

Posso fazer-me esquecida
E abandonar-te num degrau qualquer.
Posso ser a névoa perdida,
Um monstro em corpo de mulher.

Posso compreender a tua vontade
E ver a sinceridade que transmite.
Mas desprezo essa qualidade,
Por muito que não a evite.

És alguém que odeio
Mas que gosto de ter.
O meu maior receio?
É um dia te perder.

Sílvia Gonçalves

domingo, 12 de setembro de 2010

Sensações




Era um dia expectante
Que contornava a razão
E sem cavaleiro andante
Percorri o coração.
Parando no tempo
Sem esboçar pontos finais,
Colei cada fragmento
Sem danos colaterais.
Brasas me aquecem
E cristais se agitam
Quando as nuvens escurecem
E as gaivotas gritam.
Pintando painéis de luz
Respiro o ar que emudece
E tão de repente seduz
O pobre que enlouquece.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Se...

Se sou areia
És maré cheia.
Se sou luar
És o meu despertar.
Se és frescura
Eu nasci para ser tua.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lição de vida nº2


Era uma paisagem descoberta que em nada chamava a atenção. Não era daqueles panoramas que se colam à vista, ofuscando-nos os sentidos. Possuía um pequeno cavalo feito de trapos cuja base era de madeira.
Quem via tal local seguia em frente, sem fotografar, sem criticar, sem mudar a respiração.
Com a sucessão dos dias e das noites, o referido cavalo foi envelhecendo. Com o passar das Primaveras e dos Outonos, foi degenerando. Nessa altura, quem por lá passava já perdia um pouco do seu tempo a contemplar tal objecto. O que seria? Tinha tão mau aspecto. Para que servia ou teria servido? Já tiravam fotografias na possibilidade de, mais tarde, vir a perceber aquilo que outrora havia sido um cavalo de trapos.
Quando os acontecimentos correm pela normalidade nem os notámos. Passam ao lado. Se, porventura, algo os modifica, nem que seja o simples mas incómodo passar dos anos, já são alvo de cuidadas atenções. Até os nossos sentidos são interesseiros.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Lição de vida nº1


Nem sempre as palmeiras se agitam com a força da brisa que corre. Por esse motivo e muitos mais, que não importam aqui deixar, ela partiu rumo ao deserto. Foi sozinha nessa jornada perigosa.
Caminhou dias a fio sobre areia delicada onde escreveu palavras efémeras.
De mochila às costas apeou-se por entre os cactos daquele solo arenoso na procura de algo mais vivo que ela, mais vivo que aqueles cactos transpirando verdura, mais vivo que o lagarto fugitivo que por lá passou.
Precisava de algo preso à vida que a fizesse sentir o sangue a correr nas veias e os poros a dilatar de pressão.
Não era aventura que ambicionava, não era diversão, não era loucura. Queria sentir a agitação suave da vida, o trémulo passar do tempo, os trilhos do destino.
Pouco lhe importava esbarrar contra um avião despenhado pois seguiria o seu caminho sem abrandar a marcha. De nada lhe serviria encontrar um poço repleto de água pois, se ele existisse, já estaria cercado de outras vidas. Nem só ela anda perdida pela vida.
Sentou-se para desenhar o sol a esconder-se nas dunas. Os seus dedos soavam tanto que deixou escorregar o lápis, o qual rebolou pelo chão por força da grande agitação do vento. Duas incongruências presenciadas: o sol tornar-se mais forte ao desaparecer e o vento soprar mais forte numa zona de baixa altitude. Era isto que ela queria - dificuldades. Pois só quem as vive é que vive realmente.
E ali, sem ser necessário encontrar algo mais vivo que ela, acabou por encontrar vida em si mesma. Por vezes, vamos tão longe procurar o que está guardado bem dentro de nós.

Sílvia Gonçalves

O que para mim são milagres

Acho milagre a pele se regenerar,

Acho milagre a lua preceder o sol,

Acho milagre um ser humano nascer de outro,

Acho milagre a água apagar o fogo,

Acho milagre uma árvore respirar,

Acho milagre a sucessão das luas,

Acho milagre bastar fechar os olhos para dormir,

Acho milagre ver sem olhar,

Acho milagre....VIVER!



Sílvia Gonçalves

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A origem das coisas



Uma folha mostrou-se nua, possibilitando o visionar dos seus feixes de seiva. Era verde e possuía pintas escuras.
Uma mulher despiu-se, possibilitando o visionar das suas veias. Era escura e possuía olhos pretos.
Misturaram-se no mar. A mulher e a folha. A primeira nadava e a segunda boiava.
A água do mar é salgada porque a mulher soltou lágrimas nela e possui ondas porque a folha rodopiava nela também, originando pequenos tufões.
É tão fácil desvendar mistérios quando sentimos em nós o pólen da imaginação.
Sem dúvidas não haveria lugar para a fantasia. Por sua vez, sem esta não haveria espaço para os sonhos. Seria tudo exacto e recto. Não gostava de viver assim. Por isso, incertezas ainda bem que existem.

Sílvia Gonçalves

segunda-feira, 2 de agosto de 2010



Se para ti sou selvagem
E espinhos me cravam o coração,
Estás a viver uma miragem
Que não é futuro, é recordação.

Se o tempo para ti não avança
E preferes colar-te ao chão,
Forma um novo modo de esperança
Que te preencha o coração.

Esperas mesmo conhecer
A alma de tudo o que ficou.
O difícil é viver
Com o grito que ainda não soou.

Percorro em bicos de pés o mundo.
Eu sei onde quero ir.
Sei navegar no azul profundo
E sei como fazer-te sorrir.

Sílvia Gonçalves

Pisa - nuvens


Foi num aeroporto. As nuvens apresentavam-se estendidas pelo chão, estavam reflectidas.
As pessoas caminhavam normalmente. Ora levantando um pé, ora levantando o outro. Nem reparavam estar a pisar o céu. Foi aí que constatei que para além dos pisa papeis, existem pisa nuvens.


Sílvia Gonçalves

sábado, 17 de julho de 2010

Há nuvens no olhar


Sempre que corriam nuvens desprotegidas pelo céu eu sabia da proximidade de mais uma tempestade. Não era necessário o bramido das aves, o baile das folhas no ar, nem sequer as variações da temperatura.
Quando, um dia, fui ao mar, ousando navegar como um marinheiro, desbravou-se um aglomerado de nuvens escuras, pelas velocidades dos ventos. Por essa altura, rodopiava no ar um pedaço de tecido cor de trigo. Não fosse eu realista e acreditaria ter provido da roupa de alguma sereia.
Mas, voltando às nuvens… ninguém pode duvidar da sua efemeridade. As nuvens são os fracassos da vida. Não passam de gotas de desilusão que, um dia, acabam por escorrer, morrendo. Todavia, têm sempre a opção de purificar, lavando.
Só quero realmente dizer que as nuvens que nos assombram os olhos são reversíveis. Nunca duram para sempre.


Sílvia Gonçalves

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Amor entre margens


Era uma vez uma margem de um rio. E era uma vez a outra margem.
Uma chamava-se “margem esquerda” e outra chamava-se “margem direita”.
Viviam os dias olhando uma para a outra. Até onde uma se estendia a outra também. Se o rio dobra-se quase poderíamos dizer que eram simétricas.
As aves que pousavam nas árvores de uma iam contar os segredos desta à outra, pousando também nos ramos das suas árvores.
Todos os seus dias se contemplavam mutuamente com uma inocência tão natural que quase nem se apercebiam dos sentimentos que as levavam a olharem-se sempre e sempre.
Havia dias em que entre ambas se erguia um nevoeiro intenso, ocultando os seus contornos. Mas continuavam a ser margens que bebiam do mesmo rio. Continuava a existir o sentimento de existência cumulativo a cada uma.
Todavia, o que realmente as separava era o rio. Esta entrave de água tão extensa como a capacidade de amar. Não fossem as aves animais solidários e elas desconheceriam os murmúrios uma da outra. Por muito que tentassem gritar, o som da terra não se propagava por entre as águas. E por muita vontade que os peixes tivessem em ajudar, estes nada podiam contra o poder do chão.
O Homem criou as pontes para se unir com outros homens, não para possibilitar a união das margens! Mas a Natureza não dorme e, assim, criou as aves.
De tanto se olharem directamente, as margens sabiam de cor os traços uma da outra, sabiam as feições do relevo, sabiam a altura dos montes e sabiam onde se acumulada a chuva depois de cair. E, nesta atmosfera, quase sem notar, apaixonaram-se. Tão intensamente como intensa era a água que as separava.
Na vida dos Homens também existe amores que se contemplam uma vida inteira mas estão separados por uma força equivalente à de um rio, nunca chegando a juntar-se.
Serão as pessoas margens e os acontecimentos extensões de água?

Sílvia Gonçalves

domingo, 11 de julho de 2010




Há um batimento que sinto
Quando o meu olhar te alcança.
Há também pequenos tremores
Que sozinhos se propagam.
Vivo num labirinto
Onde o meu coração se lança,
Descobrindo todos os sabores
Que me purificam e lavam.

Sílvia Gonçalves

Lixeira - Génese da vida


Desde o dia em que ao mundo viemos e abrimos as mãos para abraçar, há muito para sentir, muito para descobrir, há mais para além do que somos.
Vivemos e desgastamos, e é este o nosso sentido. Todos os pedacinhos de nós, de coisas que utilizámos vão parar a uma lixeira. Esta alberga todos os pedaços de nós. Não se faz esquisita, tudo aceitando e de toda a gente.
As lixeiras são o retrato mais fiel da origem da vida. Tudo o que nelas se encontra pode voltar a ser usado, pode voltar a viver. Também nós, por muito usados e esmoídos que estejamos, podemos abrir os olhos a um novo amanhecer, podemos construir um novo viver.
Esta é a forma mais extraordinária de nos regenerarmos: reconhecer as impurezas, descartá-las e seguir rumo a um novo sol, que nasce todos os dias da mesma forma, mas é contemplado variavelmente.



Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Pontos pretos em céu azul



Houve um dia em que vi
Um céu azul com pontos escuros.
E quando a avenida subi
Eles permaneciam para além dos muros.

Muros que dividiam
As herdades da avenida.
E os pontos escuros subiam
Fazendo sombras naquele dia.

Não eram do mesmo tamanho
Nem de igual simetria.
Embora pareça estranho,
Eles enevoavam o dia.

Eram mais que reis e rainhas
Que neste dia, me intrigam.
Afinal são andorinhas
Que nesta época migram.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Formulando um poema





Formas contorcidas
Que lisas não sois
Quem vos deformou?
Ou quem vos formou assim?

Formas onduladas,
Formando ângulos rectos
Quem vos entortou?
Quem foi que vos formou?

Formas desengonçadas
Que para nada servis
Foi por força do vento
Que assim ficastes?

Formas formuladas
Que formulam a formulação
Formai também os Homens,
A moldar o coração!


Sílvia Gonçalves

Alvo errado





Com mil flechas,
Atingi o fruto que não devia,
Onde uma serpente se contorcia.

Agora há que fugir de repente
Não venha ela atrás de mim.
Sim, falo da serpente.

Se me morde
Pára-me o coração.
Disso percebiam Eva e Adão.

Esses desafiaram o perigo.
Também havia fruto pelo meio,
Era o tal proibido.

Mas eu só queria saciar a fome.
Que falta de precisão!
Eu não sou Eva de nome.

Já é quase de manhã.
A serpente perdeu-me de vista.
Posso, finalmente, saborear a maçã!
Sílvia Gonçalves
Frutos existem milhares. E serpentes também. O que conta é a intenção.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Prisão da alma

Os dedos mexem autonomamente
E a cabeça começa a fervilhar.
Nunca vivo calmamente
Porque estou sempre a pensar.

Ser fútil e vazia
Talvez menos me inquietasse.
Queria paz um só dia!
Algo que me libertasse.

Cada raciocínio feito
Um desejo a emergir.
Oh, o meu maior defeito
É esta necessidade de redigir.

Assim, vivo para as páginas
Que em branco se mostram,
Impondo apenas duas margens
Onde as minhas mãos encostam.

Sou prisioneira da literatura.
Não tenho o meu próprio viver.
Até esta amargura,
Estou a soltá-la a escrever.

Um papel e uma caneta
São o meu oxigénio
Como a prótese o é para o perneta.
E não…não sou nenhum génio!

Chega a ser doloroso
Não conseguir pensar em seco.
Que castigo maldoso
As letras serem o meu beco.

Fecho os olhos e pronto,
Lá vem a imaginação
Que faz ponto de encontro
Com a minha intuição.

Agora mesmo devia estudar
E pousar este maldito bloco.
Mas não paro de pensar
E a folha é o meu foco.

Já nada mais há a esperar.
Este é o meu viver.
E só quando parar de respirar
Deixarei de escrever!

Sílvia Gonçalves

Sinto a Natureza em mim

Há certas alturas
em que a Natureza me altera.
O meu temperamento oscila.
Como, por exempo, quando chove.
Pareço não ser quem era,
há algo em mim que morre.
Sinto grande melancolia.
Tudo fica cinzento
e os odores desse dia
são amargos,
trá-los o vento.
Sinto que a Terra
me corre no corpo.
Mudo o que sinto de lés a lés.
Anseio correr o mundo
mas nem sequer mexo os pés.
E quando a chuva, por fim, grita
só me apetece chorar.
Há mesmo dias tristes
em que não queria acordar.
Quando um trovão ecoa
bem alto, lá no céu
a minha alma anda à toa.
Se, porventura, o sol brilha
a minha pele radia,
os meus gestos ficam largos,
aproveito bem o dia
e os humores não andam alterados.
Sinto o enorme poder da Natureza em mim.
Penso que me daria bem na selva.
Seria livre e apenas escreveria
pondo de lado todas as burocracias, enfim.
Que feliz me sentiria!


Sílvia Gonçalves

terça-feira, 8 de junho de 2010

Poema espelhado





Já me incorporei na peça.
Vesti o meu papel.
Emparelhei contigo.
Decorei o cenário.
Tirei a roupa do armário.
Já interpreto o que digo.
Sou um retrato fiel.
Quero que alguém me despeça.

Prefiro viver o real.
Que também veste disfarces.
Que tem máscaras veladas.
Que procura aclamação.
Sou dona do meu guião.
Não conto as minhas passadas.
Dou abraços e não enlaces.
Sou personagem leal.

Sílvia Gonçalves

Preocupação





Que incerteza
Me inquieta a alma,
Prende-me o corpo.
Tira-me a calma.

Até hoje sempre consegui.
E daqui para a frente?
Que angustia me cerca.
Mas sempre assim vivi.

Dou voltas na cama,
Nem os sonhos são bons.
Acordo na dúvida
Que nem duvida se chama.

Sílvia Gonçalves

domingo, 6 de junho de 2010



Talvez seja franja de mar
Ou pétala solta ao vento
O que de ti me faz ritmar
Neste poema brando e lento.

Talvez sejam os sonhos vontades
Que se reprimam no inconsciente
Ou pedaços de herdades
Onde se colhe a semente

Talvez esses grãos germinem
Ao cair na terra lavrada
E os astrólogos examinem
Uma amena alvorada.

Talvez seja branco o papel
Ou manchado em tinta incolor
Sem ser necessário haver pincel
Se também não há corrector.

Talvez o que escreva seja vago, vão
E se difunda no infinito.
Mas rodopia-me no coração
De um modo que é regra, doçura e mito.

Sílvia Gonçalves

sábado, 5 de junho de 2010

Força externa



Há uma grua que me arrasta,
Quase me arrebenta por dentro
Para essa imagem gasta
De ferida aberta ao vento.

O fim é o meu limite
E o inicio o final.
Se a cronologia me permite
Ficarei sempre imortal.

Não sei o espaço
Que as algas ocupam no mar
Mas o meu já está gasto
Foi ocupado de amar.

Vou fechar as persianas.
Amanhã é um novo dia
Em que mais gruas virão
Até me levarem o coração.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Versos desemparelhados



Reconhecer que uma lagoa
Certamente, pode verter
Não nos faz andar à toa
Pois é fácil de perceber.

Os amores não se comparam
E as luas mudam de fase.
As ilusões não amparam
Uma memória que Jaze.

São picos de rosas
Os dissabores que ocorrem
E por entre todas as prosas
Os pensamentos não morrem.

Tem formas o que hoje sinto
E não as conto a ninguém
Porque giram num labirinto
Do qual eu sou refém.

Folhas sacudidas pelo vento
São paisagem divinal
Que evocam todo o sentimento
Terreno ou celestial.

Sílvia Gonçalves

sábado, 15 de maio de 2010

Tarefa partilhada


A poesia é das coisas que me faz mais feliz.
Porém, a vida não é apenas feita de palavras, de versos e melodias. A vida é feita de pessoas! Por ti e para ti, Catarina Morais, mais conhecida por Michelle (Ca)Brito, a marine:


Existe uma dor adormecida
Que é ar, suspiro e respirar
E dá voltas em torno da vida
Aguardando um suave desabrochar.

Eis que te vejo surgir,
Lento e sem compassos de espera,
Num murmúrio de quem não quis fugir,
Optando construir uma nova era.

Relembro as palavras que ficaram
E mesmo as que ficaram por dizer.
Um tempo onde os amores findaram
E tudo o que vivemos só me fez sofrer.

É pó, sal, terra e luz
Tudo o que de nós parece restar.
Só uma coisa ainda me seduz
Que para mim vou guardar.

São frases soltas que ficam.
Os momentos, esses, hei-de apagar
Pois eles de mim abdicam.
Não é hora de recordar.

No fundo, tudo são desejos
De um passado que um dia sonhei.
Ficaram abraços e beijos,
Outrora ficou alguém que verdadeiramente amei!


Catarina Morais & Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Só às vezes...



Só às vezes vale a pena.
Só às vezes ouço a tua voz.
Só às vezes importa referir.
Mudar o palco de cena.
Santos e heróis estão entre nós.
Só às vezes importa sorrir.


Só às vezes a música pára.
Só às vezes decoro o refrão.
Só às vezes sei como agir.
Olhar-te cara a cara,
Pegar-te na mão.
Só às vezes posso permitir.

Só às vezes o que resta volta.
Só às vezes me sei recompor.
Só às vezes procuro fugir.
Nem tudo me faz falta.
Escorro lágrimas e suor.
Só às vezes me apetece partir.

Sílvia Gonçalves

Naquela ponte



Naquela ponte,
Onde a lua se via
Fiz das artérias a fonte
Onde o teu corpo bebia.

Naquela ponte,
Onde andorinhas levavam barro
Até ao cimo do monte,
Acendeste mais um cigarro.

Naquela ponte metalizada,
Vendo barcos a passar
Ancorei-me como tua fada
E atirei-me até ao mar.

Sílvia Gonçalves

a 2007

Acolhera-nos aqui,
falaram de família
não percebi.
Até que a faculdade
se transformou em vontade.
já compreendi.
Esta casa de laranja
com o orgulho na lembrança,
que juntos os faz ir além.
Pois fa-nos descobrir
que a tradição é p'ra cumprir
e que mais do que nós somos um.
Vocês de capa traçada
mostram aquilo que um dia
queremos ser.
Com o preto, nossos ídolos,
levamos no pensamento
cada momento.
Chegou o dia de crescer
e caloiro deixar de ser.
O tempo não volta a trás.
Mas continuaremos a mostrar
seja a chorar ou a gritar
que temos mesmo orgulho em pertencer.
É o nosso orgulho
de diospiros a crescer
que nos ensinaram a ter.
E o vosso exemplo
vamos imortalizar.
Somos mais do que mil somos um.
E vamos manter
este modo de viver
e o laranja comigo trazer.
Nestas sessões de praxe,
onde tudo isto nasce.
Doutores: EU AMO VOCÊS!
2009

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Misticismo



Foi saltando
Até alcançar movimento.
Nesse teu corpo eu comando
Todo e mais algum pensamento.

Desviou-se da tormenta,
Acalentando o amanhecer,
Sendo uma pérola magenta
Duma cor qualquer.

Voltou ao mesmo refrão
Sem notar a altivez
Do seu pobre coração
Que bate de lés a lés.


Sílvia Gonçalves

domingo, 18 de abril de 2010

Só te resta a voz



Suaves e cintilantes copos de cristal pousam nos teus finos e delicados dedos. Não és tu que neles pegas. Eles pousam em ti.
Vestidos de seda contornados a renda deslizam-te pelo corpo. Não és tu quem os veste. Eles caem sobre ti.
O teu leito incita-te a dormir. Não és tu que nele te deitas, é ele que se chega junto a ti.
Nasceste para ser princesa. Nada fazes. Tudo está destinado a envolver-te e a desvendar os teus mais velados segredos.
Há um misticismo em ti. Em tudo que pensas. Em tudo que és.
Apenas uma coisa em ti é movida pelo teu ser, sem precisar de vontades alheias: a tua voz. Cantas arrepiantes melodias que fazem ondear a água do pequeno lago do teu jardim.
A maior força dos homens contínua a ser a sua voz!


Sílvia Gonçalves

sábado, 3 de abril de 2010

Prefiro gravar


Recordar não é necessariamente mau. Se fizer da realidade um livro de recordações vou permanecer enclausurada numa gaveta coberta de pó e marcada pela velhice.
Inovar a cada dia não é necessariamente bom.
Restam dúvidas que nos levam a questionar o nosso fundamento existencial.
Às vezes custa, outras não.
Ressaltar paredes e becos faz crescer.
Arranhar as nuvens com a ponta dos dedos dos pés faz rir.
Fazer cascatas de choro faz florescer uma nova floresta.
Escorrer sangue numa pedra limpa não é sujar, é purificar.
Tocar harmonias românticas faz contorcer os corações e estremecer a alma.
Todas estas sensações são reversíveis e passam a cada segundo no diapositivo da nossa curta e melada vida.
O que, com gozo, gosto de fazer é deixar as fotos de lado e usar gravações. Não é que o som e o movimento me fascinem incomensuravelmente. Mas é pelo prazer de fazer batota com a vida que teima em fragmentar todos os momentos quando o que quero é que neles permaneça a continuidade.
Vida, não és só tu que brincas!

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Às vezes sim, às vezes não


Esta noite sonhei um passado que julgava apagado.
Foi tão doce e real.
Será que a fortaleza de um sentimento forte nunca se pode desvanecer?
Quando abri os olhos, desejei contornar a situação com um breve suspiro.
Será que para sempre haverá pedacinhos de ti em mim? Talvez a teia que me tenhas lançado ainda não se tenha descosido na plenitude.
Sei que em ti já não existo. Talvez se os nossos olhares se cruzassem não fosse bem assim. Mas…ainda bem que não cruzam. Não quero voltar a sentir o peso de te apagar.
E a sensação do teu abraço ainda persiste em mim. Talvez para sempre exista no meu ser fragmentos do ser que foste e já não és. Mas não quero saber. A sensação até é boa. Pena ser irreal.
Mas, para me consolar, sinto orgulho no que em mim ainda existe. É sinal que não foi em vão tudo o que, um dia, no mais sentido abraço, te prometi.


“E uma lágrima cai, a cada beijo teu. Esta noite sou, dona do céu. Eu não sei quem te perdeu.”

Sílvia Gonçalves