sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pensamentos vãos



E se eu caísse do céu,
Ao tropeçar num astro
E aterrasse num ilhéu
Ou no cimo de um mastro?

E se perdesse a identidade
E tudo o que daí pode advir,
Pela força da gravidade,
Uma vez que estava a cair?

E se eu ganhasse asas
No momento da queda?
E pousasse em casas
Feitas de pedra?

E se eu parasse de sonhar,
Acordando para a realidade?
Certamente iria constatar
Que ganhar asas e voar
Não é próprio da humanidade.

Sílvia Gonçalves

Amar

Este poema foi escrito há uns aninhos atrás...como tal, está repleto de sentimentos que já não sinto...é interessante ver como estes estão em constante mutação...o que senti ontem não é o que hoje sinto e será diferente do que vou sentir amanhã....

Amar é ter um jardim
E querer apenas uma flor.
Amar é o que és para mim
E assim se vive o amor.

Temos todo o mundo
Mas falta sempre alguém,
Que nos acalme e abrace
E que nos ame também.

Amar é sentir, de repente
Essa tua pele quente.
É sentir falta,
É chorar.
É subir uma montanha
Só pelo prazer de a escalar.

És um oceano
Liberto do mar,
Que de mim está perto
Mesmo se estando a afastar.

Por entre noites
Solitárias,
Angustiantes,
Sinto sempre uma presença,
Uma alma que se esconde.
Amar é quem pensa
Levantar-se sempre,
Ainda que tombe.

Nos caminhos vazios do infinito
Por vezes, solta-se o grito
Que nos diz o que realmente é amar.
E os sentimentos desprendem-se, a flutuar.

E como a ínfima migalha de pão
Tem o seu valor,
Tu vales para o meu coração
E assim se vive o amor.

Sílvia Gonçalves

segunda-feira, 6 de julho de 2009

(Vi)ver-te


Foi bom viajar contigo,
Conhecer um pouco mais
Do teu mundo.
Estar ao teu abrigo,
Deixar os dias banais
E tocar no teu fundo.

É indescritível a tua presença
E tudo o resto que me cativa,
De um modo especial.
Não sei se é elogio ou ofensa
Por ti dar a vida,
Se sou uma simples mortal.


Sílvia Gonçalves

Amar-me-ás sem saber?


Pegas-me a mão
Sem querer.
O que te move é o instinto,
Ou talvez o coração.
Começo a tremer…
Fazes-me carícias
Mesmo sem notar.
O que te move é o prazer,
Ou talvez esse doce olhar.
Fazes-me estremecer…
Lanças-me palavras ,
Que tocam suavemente,
As minhas mãos suadas
E todo o ar envolvente…

Sílvia Gonçalves

...



Começa a bater leve,
Essa musica que me faz
RECORDAR-TE!
Sinto o teu sorriso,
O brilho da tua voz,
Os gestos que me prendem.
És felicidade breve,
Mundo alado que me traz
Para o AMAR-TE!
Faço o que é preciso
Para haver o “nós”.
Os carinhos rendem.

Sílvia Gonçalves

domingo, 5 de julho de 2009

Tu e a noite


A noite saiu à rua,
Num dia especial,
Em que a tua amargura
Que, normalmente, perdura
Se tornou fatal.

Ela vestiu-se de negro
De uma forma ocasional,
Livre no seu enredo,
Ela saiu, sem medo
E tu, com esse ar fatal.

Parecias mais sombrio
Que ela.
Envolto nessa amargura,
Caíste do poderio.
O calor passou a frio
E acendeste uma vela.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Deturpando a realidade


A longevidade
É possível de aproximar,
Subornando-se a realidade
Com uma quantia exuberante,
Semelhante à água do mar,
Que é o chão do navegante.

O infinito
É possível contabilizar,
Subornando-se a realidade
Com uma quantia incalculável,
Semelhante ao amor de um lar,
Que é a base de uma sociedade aceitável.

O passar do tempo
É possível fazer parar,
Subornando-se a realidade
Com uma quantia desmedida,
Semelhante ao oxigénio do ar,
Que é essencial à vida.

A realidade
É possível falsificar,
Subornando-se a razão
Com uma quantia inatingível,
Que provém do coração
E evoca um som audível,
Na hora da negociação.

Sílvia Gonçalves

A matéria da vida


Viemos ao mundo
Sem uma lição estudada,
Com um desconhecimento profundo
E um caderno de nada.

Possuíamos existência, apenas.
Não tínhamos manual de instruções,
O que nos causava dilemas,
Sem aparentes soluções.

Gradualmente, fomos concebendo
Um saber algo abrangente.
O passado íamos retendo
Em função do presente.

Cada experiência,
Uma página caligrafada.
E, através da convivência,
Íamos enchendo o caderno do nada.

Num comportamento terno
E sem exagerado aparato,
Descobrimos que este caderno
Era o nosso auto - retrato.

Era um caderno normal
Cuja capa não era forte.
E quando chegou ao final
Metaforizou a morte.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sentimento


Esse teu olhar

Envolve todo o meu ser.

A tua essência é pura,

Faz-me adormecer

E sonhar

Num mundo que perdura,

Que não faz doer.

Os teus gestos

São folhas ao vento.

E os teus afectos,

Livres e breves,

São naturais e incertos,

São flocos de neve.

Não poder envolver-me

Na tua galáxia perdida

Não acalenta o meu coração.

Mas sei que me sentes

Quando me estendes a mão,

Quando me fechas uma ferida.

Certamente que és

Uma nuvem do céu.

E eu serei para sempre

Um anjo teu.

Com as minhas asas,

Elevar-te-ei ao infinito.

Com a tua suavidade,

Irás desprender-me o grito:

AMO-TE

Sílvia Gonçalves



sexta-feira, 19 de junho de 2009

Paisagem imaginada



Era uma paisagem sublime
Feita de sombras e vultos
Onde a dor oprime
E existem segredos ocultos.

Possuía uma lagoa
E uma névoa cinzenta.
Onde a dor magoa
E a paz não entra.

Tinha apenas um habitante
Que vivia solitário,
Com uma dor ofegante
E aspecto centenário.

Era um lugar singular
Que não existia realmente
Mas que ousei imaginar
Com a força da minha mente.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 18 de junho de 2009

As crianças



Olham páginas em branco

E avistam cor.

Refugiam-se de baixo de um manto

De carinho e de amor.

Deslocam-se em bicos de pés

Quando querem uma carícia

E lutam contra ventos e marés,

Lealmente, sem malícia.

Pintam paredes de sonhos

Com a tinta da imaginação.

Possuem corações medonhos

Mas que cabem numa mão.

São a alma do futuro

Vindas de um passado recente.

Ainda não têm um espírito maduro.

Mas o alcançarão, calmamente.

Percorrem caminhos de descoberta

Sem os pedirem a ninguém.

E, porque a vida não é certa,

Por vezes, tratam-nas com desdém.

Ainda muito haveria para contar

Sobre os caminhantes desta faixa etária.

Mas, tal como eles, vou brincar

E pousar a caneta na secretária.

Sílvia Gonçalves


sábado, 13 de junho de 2009

Eu,só eu


Hoje vou escrever uma poesia
Que não rima nem versa.
E se, por acaso, rimar e versar
Será isso mesmo, obra do acaso.
Hoje, aqui e agora,
Neste preciso momento,
Reflicto um pouco do que sou.
Sou ave, ferro e fogo.
Sou a alegria de um olhar.
Sou pedra, sede, lume.
Caminho sem me guiar.
Eu simplesmente avanço.
Não dou passos de criança.
Não piso o chão dos adultos.
Eu sou eu.
Eu mesma!

Sílvia Gonçalves

terça-feira, 9 de junho de 2009

12ºC



A vida juntou-nos, simplesmente.

Quis que, juntos, formássemos um só.

Fê-lo sem uma razão aparente,

Como se fossemos peças de um dominó.


Ela jogou com cada um de nós

De forma a nos enquadrar,

Num mundo de silêncio e de voz,

Que nunca se iria quebrar.


Silêncios mudos

E vozes expressivas.

Fomos alunos

Das nossas próprias vidas.


Sorrisos nos lábios

E um brilho no olhar,

Fomos ignorantes, fomos sábios

Aprendizes do amar.


Uma vez unidos,

Sempre assim nos mantivemos.

E os momentos vividos

Jamais esqueceremos.


Juntos, fomos terra.

Juntos, fomos mar.

Fomos a alegria que se eleva

Quando o destino quer chorar.


E é assim que vos recordo:

Gente alegre e amiga

Que mesmo já não estando a bordo,

Estarão sempre na minha vida.

Sílvia Gonçalves


sexta-feira, 15 de maio de 2009

nuvem, pássaro, lua...

Uma nuvem passou,
Ao de leve
Sobre a lua.
E um canto de pássaro
Ecoou,
Canto livre e breve
Como essa alma que é tua.

A nuvem seguiu em frente,
Deslizando com o vento.
Vento forte e frio.
E o pássaro calou
De repente,
Calou por um momento.
Pássaro selvagem e luzidio.


A nuvem desapareceu
No mar.
Mar salgado.
Noite amena.
O teu corpo bebeu,
Ao respirar,
O meu suor derramado.
E o pássaro solta uma pena.

Sílvia Gonçalves

Efemeridade

A vida tem um fim
Que vem ao acaso,
Como uma flor de jasmim
Seca num vaso.

A vida abandona
Quem quer viver
E eu não sou dona
Do que quero ter.

Tudo se evapora
Num simples momento.
Por isso, o que fazemos agora
É apenas passar tempo.

Sílvia Gonçalves

sábado, 2 de maio de 2009

The end (como nos filmes)

Ainda bem que não permiti
Que tatuasses meu nome.
Se tudo teria um fim,
Foi melhor assim.

Ainda bem que não chorei
Noites a fio por pensar
Que te iria perder,
Se tinha de acontecer.

O que ficou
É um doce recordar
Tudo o resto, o vento levou
Sabe-se lá para que lugar.

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Olhares esquecidos


Ia descendo a rua
Numa noite sem lua,
Onde a escuridão
Me queria dar a mão.

Estremeci…
E foi quando vi
Um cão que me olhava,
Enquanto passava.

Olhar terno.
Olhar sereno.
Que nem se moveu
A nenhum movimento meu.

O meu medo foi em vão
Perante tão dócil cão.
Tive vontade de lhe sorrir,
De saber o que estava a sentir.

E houve um momento,
Em que senti cá dentro
Que o consegui entender,
Apesar de a outra espécie pertencer.

Fui-me afastando
E ele sempre olhando.
Mas mais nada tinha para lhe dar
A não ser um último olhar.


E aquele animal,
Com carácter tão especial,
Fez-me reflectir
No mal que está para vir.

Quantos olhares ignoramos?
Nem sequer nos importamos…
E o futuro somos nós?
Que deixamos olhares sós…


Sílvia Gonçalves

Foi no dia 25 de Abril (centenário da Banda Musical de Fornos)


Foi um dia memorável,
Como há muito não acontece,
Especial e inigualável.
Dia de relembrar,
Dia de luz,
Dia de prece.


Todos unidos a cantar
Por aqueles que já não temos.
E uma pena eleva-se no ar,
Lembrando os tempos efémeros.

Sobe,
Sobe lentamente,
Parece que vai embalada
Pela canção dolente,
Cantada pela rapaziada.

É bom evocar
Todos aqueles que partiram.
Isso ajuda-nos a mudar,
A perseverar o que construíram.

A pena deixou de se avistar.
O vento soprou…
As pessoas movem-se de lugar.
E a canção terminou…

Sílvia Gonçalves

Amores proibidos


Existem beijos e abraços,
Coisas únicas e especiais
Que diluem os cansaços,
Que categorizam os casais.

Juntos olham as estrelas.
Juntos correm pelo mar.
Juntos fazem coisas belas.
Juntos!...aprendem a amar.

Suspiros, ternuras, risos
Corações a bater forte.
São sentimentos imprecisos
Que nos conferem paz e sorte.

Juntos na dor.
Juntos na alegria.
Juntos no amor.
Juntos!... noite e dia.

São partes iguais
Enlaçando-se meigamente.
São casais
Que se amam realmente.

Eis que termina a magia…
E pergunto:
Para onde foram
Os amores que foram, um dia?

Sílvia Gonçalves

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sensualidade


Há sensualidade,
Em cada gesto que esboças.
Por cada sorriso teu,
Fica magia no ar.
Tenho em mim vontade,
Tenho em mim forças,
Para desprender o véu
E começar a amar.

Sílvia Gonçalves

domingo, 12 de abril de 2009

Noite de amor


Soltam-se palavras,
Ficam beijos e abraços,
Roupas rasgadas,
É o último dos passos.
Frio na barriga
E, depois, calor incessante.
Esta é a dura fadiga
De todo o amante.
Os gritos abafam
O ruído da vida,
E os corpos se abraçam,
Na hora da despedida.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Lua cheia


Lua cheia
Trevas erguidas…
Voz alheia
Almas feridas…

Lua cheia
Tempo de amar…
A luz encandeia
Tambores a soar…

Lua cheia
Tempo de prazer…
Um corte na veia
Para o sangue correr…

Lua cheia
Beleza transcendente…
Esta é a minha teia
O meu mundo diferente…

Sílvia Gonçalves


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Olhar

Escrevi este poema quando tinha 15 anos e foi com ele que ganhei o meu primeiro concurso de poesia, a nível escolar.
Se fosse hoje, não o escreveria da mesma forma. Aliás, ainda ponderei fazer-lhe algumas alterações mas, posteriormente, abandonei essa hipótese. Se foi isto que senti, na altura, não faz sentido mudá-lo.
As pessoas crescem mas as palavras ficam…

Olhar o infinito
Sentir multidões
Soltar um grito
Repleto de emoções.

Olhar um oceano
Sem o mar alcançar
Fazer de tudo um engano
Para nada ter de desvendar.

Olhar o fogo apagado
E o gelo escaldante
Um sofrimento amargurado
Num silêncio falante.

Olhar e não ver
Tornar real o imaginário
Querer e não ter
É esta a lei do contrário.

Olhar em frente
Receando o passado
Viver o presente
Esperando um futuro calado.

Olhar o deserto
E uma estrela incandescente
Estar perto
Mesmo estando ausente.

Olhar uma folha em branco
Escrita a tinta preta
Realçar o seu encanto
Com um lápis ou caneta.

Olhar uma rua
Reparar num candeeiro
Escutar uma alma nua
E um murmúrio alheio.

Olhar o mundo
Ambicionando o Universo
Ir da superfície ao fundo
Num pensamento disperso.

Olhar sorrindo
Adormecer chorando
Observar sentindo
Que alguém nos vai amando.

Olhar um vulcão
E na lava descobrir
A cor do coração
Que bate sem partir.

Olhar o sol
Sem reparar no céu
Compará-lo a um farol
Que por momentos foi meu.

Olhar o chão
De cabeça erguida
Tocando-lhe com a mão
Sem abrir qualquer ferida.

Olhar
E viver olhando
Sonhar
E viver sonhando.

Sílvia Gonçalves

terça-feira, 7 de abril de 2009

Tentar chegar


Tudo nesta vida
Não passa de um mero acaso,
De uma sombra corrompida,
De um beco sem saída,
E, quando tudo está perdido,
Soltam-se as brisas no ar
E o teu sexto sentido
Diz que o inferno está a chegar.

Respiras e vais respirando,
Soltas um breve suspiro,
Sentes braços te apertando
E os gritos de um vampiro.

Começas a entender o óbvio
E o sentido do mundo:
Toda a gente possui ódio,
Desde a superfície até ao fundo.

E então deixas te levar
Pelas trevas da escuridão.
A poeira começa a levantar,
Em constante agitação.

Nas profundezas do meu ser
Já só consigo encontrar
A ânsia de sobreviver
Até outra dimensão chegar.

O que mais choca
É a tortura,
Mas já não importa
Toda a amargura.

E dás a volta ao problema,
Sentes o bater do coração.
Tudo não passa de um dilema
Sem uma breve explicação.

Por entre anjos e sinfonias,
Espreita o dia esperado,
Para te irromper alegrias
E a sinfonia é o fado.

Não te deixes apanhar
Pelas garras afiadas,
Que o universo vai recuperar
Todas as páginas rasgadas.

E como as árvores despidas
Dançam ao sabor do vento,
Todas as mágoas e feridas
Desaparecem com o tempo.

Sílvia Gonçalves

domingo, 5 de abril de 2009

A ignorância de ser ignorante

Desta vez, publico uma prosa...

Talvez um dia tudo que julguei real se torne abstracto e todos os obstáculos, que me atravessam a alma, se integrem num local sobrenatural e mortal, para que, as sombras da angústia e da dor, não mais perturbem quem quer alcançar a paz.
Espero por um dia realmente puro e límpido…um dia onde a ocasião e a diferença não se juntem. Um dia vulgar mas especial.
Sem motivos nada tem valor, sem valores há que descobrir motivos.
Espero alcançar o dia da vitória. Esse dia, será para mim, o dia em que o meu espírito jamais seja interrompido por crises desnecessárias e inválidas.
Todos lutamos pelos nossos valores. É pena não darmos valor aos princípios racionais e subjectivos.
Se algo se tornar alguém, ou alguém quiser fazer-se passar por algo, ainda nem tudo está perdido.
Contudo somos manipulados pelo destino, movidos pelo tempo e arrastados pela vida. Se é que ainda pode chamar-se vida a este jogo.
Balançamos com a leve brisa que corre e mantemo-nos firmes com as fortes rajadas do vento, enfurecido pela Natureza. Essa sim domina. Tudo pode.
Por exemplo, uma flor, tem vários tons, recortes e formas, no entanto envelhece, perdendo tudo isso, de dia para dia. Talvez origine outra flor.
Tudo muda, tudo progride e sai do lugar. Tudo e todos se movem, num ciclo vicioso e arrepiante, denominado vida.
Tentar descobrir os segredos deste ciclo é invadir o nosso ser. É tornar profundo o que está claro. Tentar desvendar mistérios, quase sempre é fortalecê-los mais ainda. Ou seja, desvendar é sinónimo de ignorância.
Por diversas vezes, ao tentarmos descobrir o “porquê” de algo, criamos mais “porquês” ainda.
O melhor talvez seja viver com a ignorância da vida, mas com a sabedoria que ela nos oferece.
A isto chamo crescer, e o crescimento interior é ainda um mistério. Porém, ao saber que o contemos, já somos sábios e conscientes de algo e tornamo-nos independentes de dependências.


Sílvia Margarida da Silva Gonçalves.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Vagueando pela mente


Um dia, parei
No recanto do meu mundo,
Sem rumo nem lei,
Só com um vazio profundo.

Subi a escada do pensamento,
Passando pelo patamar da razão.
E cruzei-me com um velho avarento,
De seu nome Coração.

Surgiu, entre nós, uma conversa
Que rapidamente terminou,
Porque o velho estava com pressa
E quase nem me ligou.

Continuei o meu destino
Até alcançar a imaginação,
Que me tratou com carinho,
Melhor que o velho Coração.

No caminho de regresso
Tropecei num objecto.
E confesso,
Que me desviou o trajecto.

Mas, na vida, isso acontece até à morte,
Pensando que vamos para Este
Somos arrastados para Norte.
O destino é que nos tece.

Sílvia Gonçalves

Do que tenho medo


Não tenho medo da escuridão
Nem de animais rastejantes.
O que me assusta é a solidão
E certos sentimentos importantes.

Vou tentar explicar…

Eu temo a alegria,
A sua efemeridade.
Por isso, não tenho a ousadia
De a tornar realidade.

Tenho medo do calor,
Se a seguir vou gelar.
Por isso, fujo do amor
Para não me constipar.

Aquilo de que tenho medo
É saber que o que tenho hoje,
Pode não passar de um segredo,
Que, se ventar, se escapa, foge.

Sílvia Gonçalves

Persistir


Quando apenas me restavam as cinzas,
Voltei a queimar.
Fiz das tripas coração
E transformei-as em carvão.

Quando as velas se quebraram,
Acendi um castiçal
E reavivei a iluminação,
Com o gesto de uma mão.

Se o mundo estiver a findar
Ainda o posso soerguer,
Com a força que tiver.
Se o mundo, enfim, deixar.

Sílvia Gonçalves

sábado, 28 de março de 2009

Indefinição




Tens algo no olhar
Que reflecte quem sou
E sinto, ao respirar,
Que o amor soou.
Descontrolas meu coração
Que perde os ritmos compassados
Como um navio sem direcção,
Que procura tesouros espalhados.
Desenho os sorrisos
Que me fazes esboçar,
Por entre cabelos lisos
E pele a suar.
Nunca te senti perto,
Mas tuas palavras bastam
Para me levares do deserto,
Onde as areias se afastam.
Foi um sonho viver,
Gritar teu nome na tempestade,
Com a água a escorrer,
Limpando o pó e a saudade.

Sílvia Gonçalves



quinta-feira, 19 de março de 2009

Possuir


É um caso perigoso
Este de nos prendermos a alguém,
Seja no domínio amoroso
Ou noutra relação que se tem.

Vive-se em constante agonia
Pelo medo de perder
Essa nossa companhia,
Que nos ajuda a viver.

Possuímo-nos uns aos outros
Com um poder soberano
Como se fossemos uns loucos,
Saindo do domino humano.

É grave
Isto de possuirmos outrem,
Mas quase ninguém sabe
Que é possuído também.

E quando as pessoas se afastam,
Para onde dirigir o apego?
Todas as mágoas bastam,
Para se viver em desassossego.

Sílvia Gonçalves

terça-feira, 17 de março de 2009

Vegetal


Quem me dera ser um vegetal
De cor indefinida,
Que crescesse num quintal
Duma rua escondida.

Gostava de ter raízes vorazes
Para saciar minha fome.
Encolher-me como fazes,
Vegetal que se consome.

Gostava de ter veias de verdura
E de sentir o orvalho ao romper do dia,
Numa constante procura
De água fresca e luzidia.

Ser vegetal é ser livre.
É não ter que pensar.
Um vegetal vive
Apenas para alimentar.

Não tem contas a pagar,
Não tem mulher nem marido.
Nem sequer consegue ponderar
Que um dia será ingerido.

Gostava de ser vegetal
De ser este não ser.
Seria algo, afinal
Até alguém me comer.


Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 4 de março de 2009

Saudade


Eram tão bons os tempos
Em que fazia bolos de terra,
Repleta de pensamentos
Que se misturavam com a erva.

Eram simples os momentos
Em que me deitava sobre as flores,
Vislumbrando os acontecimentos
Que eram acompanhados de odores.

Eram felizes os instantes
Em que molhava os pés
Em águas límpidas, brilhantes
Sem marinheiros ou marés.

Era lindo construir cabanas
Onde vivia alegremente,
Sem males ou artimanhas.
Era bom ser inocente!


Sílvia Gonçalves

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Amor imaginário


Veio lentamente,
Quase sem respirar,
Este amor ardente
Que teima em ficar.
É um amor irreal
Que veio com o vento,
Através dum areal
De paz e de alento.
Para sempre irá ficar
Esta pérola de magia
Que já não habita no mar
Mas vive connosco, dia a dia.
Bastaria um momento,
Para sempre lembrar
Este sentimento,
Que me faz sonhar.

Sílvia Gonçalves

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A dor me ser


Apesar de a dor me ser
Difícil de suportar,
Não fecho os olhos.
Quero ver,
Acordada permanecer
E não mais sonhar.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Farol


Cavalgo ao ritmo do vento,
Rodeada de raios de sol.
E com um olhar atento,
Avisto um farol.

Que me dirás tu,
Farol incandescente?
Teimas em brilhar,
De modo inconsciente.
Toma cuidado,
Não vás tu apagar.

Quem te alcança
Vem do céu ou do mar.
Mas eu alcancei-te
A cavalgar.

Venho de longe.
Não tenho para onde ir.
A montanha é agreste,
Custa-me subir.

Começa a anoitecer
E eu sem cumprir meu caminho.
Obrigada por me fazeres ver
O rumo do meu destino.

Sem ti, restam-me as estrelas.
Sem elas, restas-me tu.
Sem nada, resta-me tudo.
Farol, pões as dúvidas a nu.

Sílvia Gonçalves

domingo, 1 de fevereiro de 2009


Mexi o corpo
Ao som de uma sinfonia.
Tracei um risco torto,
Porque a mão tremia.

Simulei uma fantasia
Repleta de turbulência,
Na qual eu me desfazia
Em virtude da tua ausência.

Procurei luzes no céu
Para acalmar meu pensamento.
Envolvi-me num véu
Que deslizou, com o vento.

Procurei passar as sensações para o papel
Para permanecer leve e liberta do mal,
Aprisionando a dor infiel,
Através do ponto final.

Sílvia Gonçalves

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

Telhados de vidro


Desde o dia em que nasci
Que muitas coisas
Não me pareciam leais.
Inicialmente, nem as compreendi.
Depois, tornaram-se mais reais.
Eram coisas que amargavam,
Ou que não tinham sabor algum.
Descobri pessoas que enganavam,
Outras que maltratavam
E as que feriam todos, um a um.
Comecei a crescer
E depressa constatei
Que ninguém me iria oferecer
Tudo o que já dei.
Cheguei à triste conclusão,
Que nem todos se parecem comigo.
Existem os que têm bom coração
Mas também os que apenas têm,
Um telhado de vidro.

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009



Solto os cabelos ao vento,
Dou passos suaves.
Desfruto o momento,
Elimino os entraves.

Enlaço-me com a noite escura
Sem ter refúgio visível.
A força perdura
Neste coração sensível.

Fecho os olhos lentamente,
Respiro o ar envolvente.
Possuo uma alma ausente,
Dispersa e divergente.

Sílvia Gonçalves


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Renascer


Hoje será, talvez,
O primeiro dia de felicidade,
Desde o sucedido
Que me roubou a serenidade
E me deixou o coração ferido.

A respiração já não sufoca
E a força está a chegar.
Sou como um animal na toca,
Que, selvagem, ama o vento e o ar.

Sílvia Gonçalves

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sorri,
Aproveita o bom da vida
Enquanto não souberes que morri
Desta amargura, que causou ferida.

O passado não te importa.
Continua no presente.
Mesmo quando já estiver morta,
Sorrirás para sempre.

A força que busco,
Só eu sei onde buscar.
E os lugares que ofusco,
Só eu sei fazer brilhar.

Coração que bate agora
Em função das artérias e veias,
Já bateste hora a hora
Em função de paixões alheias.

Sílvia Gonçalves

sábado, 13 de dezembro de 2008

Dizem que quem luta por amor
É herói.
Mas e quem luta contra o que sente?
Quem ama em silêncio
Para não entrar na vida de alguém.
Para mim, esses sim são heróis,
Guerreiros de uma vida.
Também eu assim sou.
Necessito tocar-te e sentir-te
E nada faço para o conseguir.
Vivo aprisionada em memórias
E momentos,
Que se propagam no tempo.
Sinto o teu cheiro
Sem estares aqui.
Amar em silêncio dói.
Dói como ter asas e não poder voar,
Ou ter sonhos e não os poder realizar.
A minha vida és tu.
Não sei se já me esqueces-te ou não,
Se me apagas-te do teu coração.
Ou melhor, sei.
Sei que não o fizes-te
Porque se é verdade que o amor existe,
Ele está entre nós.
Na distância ou na união, quem impera
É o coração.
Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008



Este é um momento
Em que me falta a tua presença.
Olho em redor e não estás.
Porquê?

A respiração aperta,
O corpo começa a tremer.
Queria parar de sofrer.

Sem ti sou uma sombra apenas.
Penso no teu sorriso,
Na tua forma de ser.
Queria parar de sofrer.

Tantos momentos felizes
Parados no tempo.
E o tempo presente
Começa a enevoar.
Só agora me dou conta,
Que não enevoou de verdade,
São apenas os meus olhos a chorar.
Sílvia Gonçalves

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Somos um



Somos um
Em corpo e alma.
Unidos numa só vida
Por isso, nada que façamos
Será uma despedida.
Habitamos o mesmo espaço,
Sentimos as mesmas sensações,
Num suspiro ou num abraço.
Se olhas uma flor
Quem vê as pétalas sou eu.
Se a brisa me tocar
Quem a sente és tu.
A minha mão na tua
Forma uma só mão.
O meu coração bate ao ritmo do teu.
Somos um,
Física e interiormente.
Quando me desloco,
És tu que me moves.
Quando procuras o sol
Sou eu que sinto frio.
Quando limpo uma lágrima
Foste tu que a deitaste.
Quando cais
É em mim que dói.
Sempre que sorrio,
Os lábios que se estendem
São os teus.
Quando sobre ti, incide a luz
Sou eu quem brilha.
Se nos olharmos ao espelho,
Apenas veremos a fusão
De um sentimento profundo,
Que prevalecerá para além do fim do mundo.
Onde há unanimidade
Jamais haverá solidão.
Sílvia Gonçalves


A saudade não mata
Mas devora.
Vou andando à deriva
Pela vida fora.

O vento não gela
Mas arrefece.
Vou olhando em frente,
Tudo o que acontece.

O murmúrio da chuva
Não incomoda, faz adormecer.
Vou vivendo na esperança
De feliz vir a ser.

O que escrevo ou imagino
Pode ou não acontecer.
Mas é a instabilidade da vida
Que nos permite sobreviver.
Sílvia Gonçalves

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Lágrimas


Cai uma, caiem duas, três…
Um mar infinito de lágrimas.
E cada uma traz mais um pouco de dor
Do que a anterior.
E a lágrima seguinte,
Traz mais dor do que esta.
E, se eu viver a chorar,
Já vivo a fazer algo.
Há quem nem chorar possa
E viva aprisionado na dor.
Eu, apesar de a sentir,
Torno-a mais leve, chorando.
E é deste modo
Que os meus dias vão passando.

Sílvia Gonçalves

São cinco e tal da manhã


São cinco e tal da manhã
E eu sem conseguir dormir.
Decidi abrir os olhos.
A noite, ou talvez, a manhã
Está no seu ponto máximo de frialdade.
Também assim está o meu coração,
Que, sem amor, arrefece.
Que raiva não conseguir dormir
E entrar num sono profundo
Que me fizesse esquecer o mundo.
Já que não sais do meu coração
Sai do meu pensamento.
Deixa-me sentir o passar das horas,
Sem significado.
Deixa-me sentir as sensações normais
Que toda a gente sente.
Oh, que súplicas insignificantes.
Nem sei porque as proferi
Se nasci para te amar
E morrerei sem te ter.

Sílvia Gonçalves