quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Saí dali. Procurei outro refúgio.
Fui dar a uma cabana coberta de pó. Também com pó estavam meus desejos.
Movida pelo cansaço, adormeci. Sonhar a dormir é mais tolerável.
O que iria a minha mente engendrar desta vez eu não sabia mas decidi correr o risco.
Digamos que ela não foi muito criativa uma vez que deu continuidade ao meu sonho acordado.
Naquela cabana coberta de pó, teci a continuação do mistério das sombras à beira rio.
Eu era feita de cera e havia outro alguém também assim feito. Éramos corpos de cera que respiravam.
Num instante e sem pedir licença, um raio de sol atingiu-nos. Fez-nos derreter. Não éramos feitos de gelo mas derretemos. Não foi o fogo a extinguir-nos mas foi o sol. Não éramos a história previsível que todos os contos albergam. Éramos nós.
Felizmente que de cera não eram as nossas entranhas nem o nosso coração. De cera era apenas o manto que nos cobria.
Assim, depois de o sol nos libertar ficamos genuinamente nós.

Continua...

Sílvia Gonçalves

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Imaginação que me abala

Avistei duas formas. Seriam corpos? Instrumentos melodiosos? Arvoredo? Seria apenas a minha imaginação que, ante sucumbir, decidiu funcionar uma última vez?
Estaria eu a avistar realmente ou seria, uma vez mais, irreal?
Decidi avançar.
Ao lado havia um rio. A água tremia a cada passo meu, parecendo advertir-me.
Era imaginação. Até o rio me tentou impedir da desilusão. Até o rio.
Recuei. Deitei-me no chão macio. Procurei seguir a minha fantasia. Apesar de não passar disso, havia-me arrastado para aquele lugar. O máximo que podia fazer era permitir-lhe findar o seu enredo…ainda que falso e, por isso, inútil.
Tantas vezes assim foi. Tentei agarrar os sonhos até eles se evaporarem como cinza que não aguenta ser apertada. Cinza que sufoca com o calor das mãos.
Pouca diferença fazia. Estava ali, ia terminar a minha ilusão.
Fechei os olhos e tudo continuou: as duas formas não saiam do lugar. Foram, sucessivamente, ficando mais nítidas. Eram corpos. Era o meu corpo! E era o corpo de outro alguém. Mas que faziam eles? Nada. Olhavam-se imóveis. Eram (concentrei-me), eram feitos de cera. Como poderia ter eu ansiado que se movessem? A cera é matéria inerte como inerte são os meus sonhos. Inertes após o momento do despertar.

Continua…

Sílvia Gonçalves

Erras tu ou erro eu



Rasgas e recompões.
Ameaças e pedes perdão.
Estou cansada de sermões,
De ouvir sempre “não”.

Vou procurar a calma
Que me permita sorrir,
No meio da minha alma
Que sempre está a dormir.

Farei de tudo um sonho
Que se apaga com o amanhecer.
Tens um coração medonho
Mas que não me está a apetecer.

Não tenho vontade de ti.
Hoje sei lá o motivo.
Não quero ver-te aqui.
Nem dar-te um ombro amigo.

Redundante é o meu ser
Que em rodas se esquece
Que és o meu viver,
Que sem ti, meu mundo falece.

Esquece que te ignorei
E fiz de ti os meus trapos.
Agora que acordei
Não terei mais lapsos.

Sílvia Gonçalves

Do que és feita



Desprovida de preconceitos,

Avanças a alameda

E escorregas nesses jeitos

De enredos de seda.

Repetidas vezes chamas

Por quem não te quer escutar,

Reavivando as chamas

Que se procuram apagar.

Teclas de piano a tocar,

Quase estão a morrer.

Ouves o som a flutuar

No espaço do teu viver.

Tens faces de cor

Que largam lágrimas de cristal.

És feita de amor

De sonhos tristes e de mal.

Sílvia Gonçalves

Descodificar-TE



Como posso escolher o caminho certo

Se controlas a minha mente

E até o tempo?

Não vou incorporar as tuas causas perdidas…

Eu nunca vou possuir o que é realmente meu
Se estás sempre a apoderar-te de mim.

Mas desta vez direi não!

Desta vez, não!



Como me deixei envolver?

Como chegamos até aqui?

No fundo, penso que sei.



Toda a verdade está atravessada no teu olhar

E velada de baixo da tua língua.

No meu sangue ferve a saudade,

Mas pareces não saber.

Que tipo de pessoa és?

Hei-de descobrir,

Um dia.


Sílvia Gonçalves


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sem ser, vais sendo


Amava viver nas árvores

E sentir o teu respirar.

Ver o vapor das águas

E reflectir-te no luar.

Com cuidado,

Subiria os troncos

Para ter-te a meu lado,

Nestes caminhos longos.

É tão grande a magia

Que me oculta os teus passos.

O que apenas queria

Era cair nos teus braços.

Se nuvens tentassem impedir

A tua boca olhar,

Eu mergulhava sem emergir

Preferindo me afogar.

Contornando a altura

Sem vertigens atingir

É chegada a altura

De te pedir para partir.

Não caias no nevoeiro

Faz-me um único sinal

Capaz de parar o mundo inteiro.

Este é o meu amor fatal.

Sílvia Gonçalves



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O teu julgamento

Começou a caminhada da crucificação…
Houve-se passos pesados…
No meio da multidão estás tu.

Diz-me porque permitiste…
Porque não te revoltaste…
Pensaste mesmo que não te iria resgatar?

Ainda longe, senti o teu cheiro…
Diz-me porque preferiste ficar só…
O caminho é duro, mas estou aqui.

Ouves? São vozes que te elevam ao céu…
Mais que humano és beleza sem igual…
Falaste me com um gesto.


Percebi…
O murmúrio findou.

Sílvia Gonçalves

Ilusão



Quando começo a voar
Olho o mundo sem querer,
Com um triste baloiçar
Que faz a paisagem tremer.

Há um espírito que arde
Onde as montanhas secam.
Não é à lua que cabe
Diluir as almas que pecam.

Quando estou no céu
La bem alto, a voar
Procuro o coração que é teu
E que te quero tirar.

Quando os meus pés levantam,
Devagarinho do chão,
Não existe maior pranto
Que sobrevoar a ilusão.

Ao olhar para a Terra
Vejo uma esfera pequena
Que anda sempre em guerra
E quase não cabe neste poema.

Sílvia Gonçalves

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Gargalhar força

Tenho mesmo de escrever.

Perdoem-me perder estes minutos.

Tem de ser.

Mesmo!

Os dias não têm dado tréguas

E só escrevendo e ouvindo

Esta música relaxante

Me permito voltar a ser

Eu mesma!

Uffff

Que tormento tem sido.

Não tirar os olhos dos papéis.

Mas foi o que escolhi!

Um monte de insatisfação

Apodera-se.

Não vou deixá-la vencer!

Olhar em frente e sorrir

Sempre!

Sorrir, sorrir, sorrir

A minha única defesa eficaz!

Sílvia gonçalves

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Reflictam para vocês mesmos

Se há momentos em que abro os olhos e de seguida os fecho quase sem pestanejar? Claro que há.
Se há alturas em que inspiro mas respiro de seguida, quando o que queria era reter o ar mais uns segundos? Sim, já me aconteceu.
Se gostava de ter o cabelo aprisionado quando o vento faz dele o que quer? Sim, imensas vezes.
Eu não sou de ferro! Ninguém o é.
O que nunca fiz foi afectar alguém propositadamente. Isso não. Coisa feia de se fazer. Cai mal. Isso não.
Mas já matei muitas formigas e seres semelhantes.
Sou uma alma boa mas desconcertada. Aqueles seres VIVOS estavam lá (as formigas) mas apeteceu-me.
Se fosse ao contrário não gostaria, certamente. Mas e agora?
Afinal até que ponto somos humanos ao não danificar os da nossa espécie intrometendo-nos nas demais?
Vá, reflictam para vocês mesmos. Somos o quê afinal e para que fins nos movemos?

Sílvia Gonçalves

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Sou feita de palavras e de imaginação



Ao tentar despregar-me da poesia
Correm-me lágrimas pelo rosto,
Pois ela é a minha alegria,
O meu maior pressuposto.

Se me obrigassem a parar de sonhar
Romperiam com o meu mundo
Porque quando estou a divagar
Busco o meu sonho mais profundo.

As frases correm-me na alma
Ainda que me revolte contra os papeis.
Elas conferem-me alento e calma
São as minhas amigas fiéis.

Proclamo o que sinto,
Disso ninguém pode duvidar.
O meu maior labirinto
É feito de imaginar.

Escrever é o meu maior bem.
É assim que vivo a vida,
Deixando de ser simples refém
E passando a pessoa activa.

Amo as virgulas, os pontos e as palavras.
Quem mas tira, tira-me o querer.
São o meu único conto de fadas
E permitem-me escrever!

Sílvia Gonçalves



Quando corríamos pela areia e te escondias nos rochedos era sonho, nada mais. Na realidade nem chegamos a pisar a praia.
As vezes que me pegavas ao colo era ilusão, nem chegaste a tocar-me.
O tempo que gasto a pensar em ti nem tempo se chama. É um conjunto de filamentos perdidos que para nada serve. Nada mais.


Sílvia Gonçalves

Ser estranho

Se abro ou fecho a porta? Não sei.
Os suaves recantos que estilhaçam a cada pisada tua são feitos de vidro. Pareces pisá-los como quem se abraça na areia dourada do mar.
Tu não tens noção da realidade. Não pareces saber que o que hoje desperdiças podes não mais alcançar no amanhã.
Se me deito à noite é porque sei que há um dia pronto para amanhecer horas mais tarde. Tu nem nisso reflectes.
Deves ser um corpo celeste com vida porque deste mundo nada sabes. Chegaste a mim por entre as estrelas ou caíste no Oceano? Podes revelar.
Eu não preciso esconder-me. Sou humana! Mas tu não.
Uma vez observei-te a pintar. Pintaste uma galáxia perdida. Não sabias que eu estava lá mas deixaste cair o pincel. Também sentes a presença humana? Afinal de onde vieste?
Um dia hei-de saltar uma vedação só para ver se me salvas, se despertas dessa bola que te envolve e vens viver o mesmo mundo que eu.
Se me salvares ficaremos vivos, se não o fizeres pelo menos vai lá depois. Limpa-me os ferimentos, nem que seja com as tuas lágrimas. Isto é, se chorares porque nunca te vi transmitir emoções.

Sílvia Gonçalves

A minha água salgada

Sou um mar de ideias

E todas elas são imaginação,

Que quando se cruzam com sereias

Explodem sabor e paixão.

Vivo a pensar

E assim passa o meu tempo,

Que é feito de mar

Onde se esconde o sonho do momento.

Ostras são as minhas percepções

Que velam pérolas preciosas,

Formulam composições

E músicas melodiosas.

Sou feita de algas flutuantes

Que não chegam ao profundo,

Preferem ares mais sibilantes,

Preferem admirar o mundo.

Tenho ainda detritos de marés

Que não chegaram a rebentar,

Evitando molhar os pés

De quem corria à beira mar.

Sílvia Gonçalves