Há certas alturas em que a Natureza me altera. O meu temperamento oscila. Como, por exempo, quando chove. Pareço não ser quem era, há algo em mim que morre. Sinto grande melancolia. Tudo fica cinzento e os odores desse dia são amargos, trá-los o vento. Sinto que a Terra me corre no corpo. Mudo o que sinto de lés a lés. Anseio correr o mundo mas nem sequer mexo os pés. E quando a chuva, por fim, grita só me apetece chorar. Há mesmo dias tristes em que não queria acordar. Quando um trovão ecoa bem alto, lá no céu a minha alma anda à toa. Se, porventura, o sol brilha a minha pele radia, os meus gestos ficam largos, aproveito bem o dia e os humores não andam alterados. Sinto o enorme poder da Natureza em mim. Penso que me daria bem na selva. Seria livre e apenas escreveria pondo de lado todas as burocracias, enfim. Que feliz me sentiria!
Já me incorporei na peça. Vesti o meu papel. Emparelhei contigo. Decorei o cenário. Tirei a roupa do armário. Já interpreto o que digo. Sou um retrato fiel. Quero que alguém me despeça.
Prefiro viver o real. Que também veste disfarces. Que tem máscaras veladas. Que procura aclamação. Sou dona do meu guião. Não conto as minhas passadas. Dou abraços e não enlaces. Sou personagem leal.
A poesia é das coisas que me faz mais feliz. Porém, a vida não é apenas feita de palavras, de versos e melodias. A vida é feita de pessoas! Por ti e para ti, Catarina Morais, mais conhecida por Michelle (Ca)Brito, a marine:
Existe uma dor adormecida Que é ar, suspiro e respirar E dá voltas em torno da vida Aguardando um suave desabrochar.
Eis que te vejo surgir, Lento e sem compassos de espera, Num murmúrio de quem não quis fugir, Optando construir uma nova era.
Relembro as palavras que ficaram E mesmo as que ficaram por dizer. Um tempo onde os amores findaram E tudo o que vivemos só me fez sofrer.
É pó, sal, terra e luz Tudo o que de nós parece restar. Só uma coisa ainda me seduz Que para mim vou guardar.
São frases soltas que ficam. Os momentos, esses, hei-de apagar Pois eles de mim abdicam. Não é hora de recordar.
No fundo, tudo são desejos De um passado que um dia sonhei. Ficaram abraços e beijos, Outrora ficou alguém que verdadeiramente amei!
Só às vezes vale a pena. Só às vezes ouço a tua voz. Só às vezes importa referir. Mudar o palco de cena. Santos e heróis estão entre nós. Só às vezes importa sorrir.
Só às vezes a música pára. Só às vezes decoro o refrão. Só às vezes sei como agir. Olhar-te cara a cara, Pegar-te na mão. Só às vezes posso permitir.
Só às vezes o que resta volta. Só às vezes me sei recompor. Só às vezes procuro fugir. Nem tudo me faz falta. Escorro lágrimas e suor. Só às vezes me apetece partir.
Suaves e cintilantes copos de cristal pousam nos teus finos e delicados dedos. Não és tu que neles pegas. Eles pousam em ti. Vestidos de seda contornados a renda deslizam-te pelo corpo. Não és tu quem os veste. Eles caem sobre ti. O teu leito incita-te a dormir. Não és tu que nele te deitas, é ele que se chega junto a ti. Nasceste para ser princesa. Nada fazes. Tudo está destinado a envolver-te e a desvendar os teus mais velados segredos. Há um misticismo em ti. Em tudo que pensas. Em tudo que és. Apenas uma coisa em ti é movida pelo teu ser, sem precisar de vontades alheias: a tua voz. Cantas arrepiantes melodias que fazem ondear a água do pequeno lago do teu jardim. A maior força dos homens contínua a ser a sua voz!
Recordar não é necessariamente mau. Se fizer da realidade um livro de recordações vou permanecer enclausurada numa gaveta coberta de pó e marcada pela velhice. Inovar a cada dia não é necessariamente bom. Restam dúvidas que nos levam a questionar o nosso fundamento existencial. Às vezes custa, outras não. Ressaltar paredes e becos faz crescer. Arranhar as nuvens com a ponta dos dedos dos pés faz rir. Fazer cascatas de choro faz florescer uma nova floresta. Escorrer sangue numa pedra limpa não é sujar, é purificar. Tocar harmonias românticas faz contorcer os corações e estremecer a alma. Todas estas sensações são reversíveis e passam a cada segundo no diapositivo da nossa curta e melada vida. O que, com gozo, gosto de fazer é deixar as fotos de lado e usar gravações. Não é que o som e o movimento me fascinem incomensuravelmente. Mas é pelo prazer de fazer batota com a vida que teima em fragmentar todos os momentos quando o que quero é que neles permaneça a continuidade. Vida, não és só tu que brincas!
Esta noite sonhei um passado que julgava apagado. Foi tão doce e real. Será que a fortaleza de um sentimento forte nunca se pode desvanecer? Quando abri os olhos, desejei contornar a situação com um breve suspiro. Será que para sempre haverá pedacinhos de ti em mim? Talvez a teia que me tenhas lançado ainda não se tenha descosido na plenitude. Sei que em ti já não existo. Talvez se os nossos olhares se cruzassem não fosse bem assim. Mas…ainda bem que não cruzam. Não quero voltar a sentir o peso de te apagar. E a sensação do teu abraço ainda persiste em mim. Talvez para sempre exista no meu ser fragmentos do ser que foste e já não és. Mas não quero saber. A sensação até é boa. Pena ser irreal. Mas, para me consolar, sinto orgulho no que em mim ainda existe. É sinal que não foi em vão tudo o que, um dia, no mais sentido abraço, te prometi. “E uma lágrima cai, a cada beijo teu. Esta noite sou, dona do céu. Eu não sei quem te perdeu.”
Neste comboio da vida Onde, por vezes, fico abarcada Tentando descobrir a saída Ou, apenas, a carruagem adequada Viajo incessantemente, Numa procura imensa De alegria que dure para sempre E de luz perpétua e intensa.
Se embato sem querer Foi o meu destino que prometeu Numa circunstância eleger Um comboio como o meu. Desde que o choque não abale Quem comigo possa trazer O meu destino que fale Justificando esse embater.
Ele acariciava a tela com o pincel embebido na tinta mais doce que tinha. Espreitava, pelo lado do vaso posto na varanda, a sua paisagem. Era uma paisagem humana que se movia ao som do bater suave do coração. O retrato deste jovem pintor era uma mão a alisar fios de cabelo castanho que percorriam um rosto inquieto. Era a altura de mudar de cor. Embebeu o pincel mais fino de todos na tinta mais escura. Objectivo: demarcar a escuridão com simplicidade. O retrato movia-se o que dificultava a tarefa do pintor. Mas cada gesto era retido na sua mente a fim de ganhar cor. Talvez outra. Começou a chover repentinamente e o vaso agitou-se com o vento e a tarefa do pintor ficou ainda mais complexa. Mas enquanto o que pintava permanecesse naquela outra varanda, do prédio em frente, o exercício da arte era possível. Porque não pintar as formas torcidas da varanda juntamente com as plantas que a envolvem? Passava tudo por uma questão de inspiração. Não era a varanda, inerte e fácil por isso, que interessava ao pintor. Também não era a dona do cabelo que lhe chamava a atenção. Era apenas aquele cabelo castanho e aquela mão pálida que de tão delicada chegava a meter dó. Ele queria pintar a realidade. Para quê imaginar uma rapariga loira de cabelo brilhante e mãos carnudas? Não era essa imagem que ele via. Pintou até os dedos desprenderem o cabelo e a mão cair sobre o peito. O cabelo completamente livre misturou-se com os tons do pôr do sol que atravessavam a avenida e adquiriu a mais bela cor de sempre. Porém, já era tarde e a rapariga entrou no quarto deixando um rasto de cortinas a esvoaçar. Mas o pintor reteve aquela cor indefinida de cabelo misturado com o pôr do sol na memória e, misturando todas as cores que tinha, terminou a sua tela. Uma tela distinta das demais……….porque pintou a realidade.
Numa noite, dançamos apertados Passos descompassados, Era pura paixão. E, sorrindo, Fizeste parar o tempo, Num doce movimento Que quase me emocionou.
E dançamos pela noite fora Até a hora de ir embora Como um real casal. E tu viste, o meu ser mais profundo Deste-me a volta ao mundo E apertaste-me junto a ti.
E as ondas, Quebraram nessa noite. O teu corpo dói-te Por estar tão junto ao meu. Paraste. Apertaste-me contra o peito Fizeste de mim teu leito Mas que momento especial.
E um beijo solta-se de qualquer jeito Foi um beijo imperfeito Não era para acontecer. E assim, calados olhamos a lua Com a alma toda nua. Foi o nosso viver.
Este é o único poema que se encontra neste meu espaço que não foi por mim criado. Coloquei-o aqui por ser dos meus sonetos predilectos e por ter um significado especial. Desfrutem de um exemplar de verdadeira poesia..
Amor é um fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente, É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
O sentimento de amor vivido por muitas pessoas reparte-se por gavetas fechadas e papeis rasgados. Se não fosse o dia dos namorados, muita da gestão desse amor nunca seria feita. Nunca iriam parar aos sítios certos os momentos adequados e jamais os carinhos e afectos rumariam até aos locais ajustados.
Para muitas dessas pessoas, esse dia é uma forma de recorrerem à mesma loja de sempre, a fim de comprar as mesmas rosas de sempre, com o mesmo aroma de sempre e envoltas no mesmo tom de sempre.
Regra geral, o dia de S.Valentim obriga os casais a embrulhar o desprezo num papel apelativo, tentando simular o romance perfeito e esperado.
As horas passam, os dias passam, os anos passam…tudo parece saturar.
Mas porquê que o amadurecimento não parece ser compatível com amor? Porquê que o coração não se enruga com o entrar na velhice? Porquê que as pessoas não permitem uma proporção de amor por entre anos e anos de convivência?
Não faz sentido alguém deixar os elogios à porta, pensando que as pessoas já os adivinham. Eles são sempre necessários. E não vale evitar o perdão com a desculpa de que os erros e trapalhadas já se tornaram hábito.
Não faz sentido algum parar de olhar nos olhos como outrora, ansiando a mais doida proeza. Não devia ser permitido parar de sonhar, olhando todas as situações como previsíveis e, por isso, despidas de magia.
Devia ser proibido o “há tanto tempo que já te conheci” e obrigatório o “ainda bem que te conheci”.
Tudo bem que com o passar do tempo o coração pode deixar de ser vermelho. É normal que aconteça. Mas porquê que ele não assume várias cores? Cada experiência passada assumia um tom e, assim, o amor não se perdia e ia-se enriquecendo cada vez mais.
E também já não faz sentido pensar que o amor tem de ser vivido à beira mar numa noite de luar. O amor pode e deve ser sabedoria mais que aventura, para poder sobreviver no tempo e enraizar - se no coração.
Quanto àquele tipo de amor, se é que este pode ser categorizado, que só se alimenta na noite, na cama, tenho sérias restrições perante ele. Pois a cama pode assumir o estatuto de um palco, onde apenas se finge, não se vivendo a plenitude do amor. Curiosamente, a cama até está mais elevada relativamente ao chão, tal como um palco.
Para concluir, penso que o amor é como o humor: só aparece com o passar dos anos. Só depois de muito se aprender é que estes têm lugar na nossa vida.
Amar tem de ser mais do que dar e receber. Amar talvez apenas seja ser e ser-se, de modo sincero.
Aprendemos teorias que a vida adora contrariar. Seguimos regras que a vida quebra de modo constante. Afastámo-nos de quem devemos e a vida teima em unir-nos. Juramos ser “para sempre” e a vida mostra-nos o “fim”. Colocámos de lado o “jamais” e a vida (sempre a vida) atira-nos para o que evitamos. A nós, o que nos cabe afinal?