Há muito muito tempo atrás, quando começaram a surgir as primeiras auto-estradas, uma família ficou sem lar. A via referida estava projectada para passar mesmo no local onde os primeiros tijolos ganharam forma, erguendo o corpo da casa dessa família. Solução? A mais simples, claro. Derrubar a dita casa, indemnizando os donos desta. Nessa casa, outrora havia sido gerada uma criança, fruto do amor do casal que nela habitava. Estes, tristemente, deixaram o local onde deram vida aos seus primeiros sonhos, onde festejaram aniversários, natais, onde fizeram refeições intermináveis, onde descansaram ao som da aparelhagem localizada na sala de estar… Com o dinheiro que receberam (merecido dinheiro) construíram novos sonhos, começando por um novo edifício. Passado anos houve um acidente naquela auto-estrada. Resultado? Dois feridos graves e uma criança morta. Ironia do destino, se recuássemos até ao tempo da casa, viríamos que o local do despiste ficava precisamente sob o que antes havia sido um quarto, onde havia dormido um casal, onde havia sido idealizada uma criança, onde fora efectivamente consumada. E como que se de uma moeda se tratasse, aquele local assumiu duas faces: uma de vida e uma de morte. Sabemos lá o que é para sempre, o que nunca sairá do lugar…só uma coisa podemos tentar presumir: o amanhã será uma nova experiência. Não é relevante de que cariz seja, importa que seja e nada mais.
Era um dia expectante Que contornava a razão E sem cavaleiro andante Percorri o coração. Parando no tempo Sem esboçar pontos finais, Colei cada fragmento Sem danos colaterais. Brasas me aquecem E cristais se agitam Quando as nuvens escurecem E as gaivotas gritam. Pintando painéis de luz Respiro o ar que emudece E tão de repente seduz O pobre que enlouquece.
Era uma paisagem descoberta que em nada chamava a atenção. Não era daqueles panoramas que se colam à vista, ofuscando-nos os sentidos. Possuía um pequeno cavalo feito de trapos cuja base era de madeira. Quem via tal local seguia em frente, sem fotografar, sem criticar, sem mudar a respiração. Com a sucessão dos dias e das noites, o referido cavalo foi envelhecendo. Com o passar das Primaveras e dos Outonos, foi degenerando. Nessa altura, quem por lá passava já perdia um pouco do seu tempo a contemplar tal objecto. O que seria? Tinha tão mau aspecto. Para que servia ou teria servido? Já tiravam fotografias na possibilidade de, mais tarde, vir a perceber aquilo que outrora havia sido um cavalo de trapos. Quando os acontecimentos correm pela normalidade nem os notámos. Passam ao lado. Se, porventura, algo os modifica, nem que seja o simples mas incómodo passar dos anos, já são alvo de cuidadas atenções. Até os nossos sentidos são interesseiros.
Nem sempre as palmeiras se agitam com a força da brisa que corre. Por esse motivo e muitos mais, que não importam aqui deixar, ela partiu rumo ao deserto. Foi sozinha nessa jornada perigosa. Caminhou dias a fio sobre areia delicada onde escreveu palavras efémeras. De mochila às costas apeou-se por entre os cactos daquele solo arenoso na procura de algo mais vivo que ela, mais vivo que aqueles cactos transpirando verdura, mais vivo que o lagarto fugitivo que por lá passou. Precisava de algo preso à vida que a fizesse sentir o sangue a correr nas veias e os poros a dilatar de pressão. Não era aventura que ambicionava, não era diversão, não era loucura. Queria sentir a agitação suave da vida, o trémulo passar do tempo, os trilhos do destino. Pouco lhe importava esbarrar contra um avião despenhado pois seguiria o seu caminho sem abrandar a marcha. De nada lhe serviria encontrar um poço repleto de água pois, se ele existisse, já estaria cercado de outras vidas. Nem só ela anda perdida pela vida. Sentou-se para desenhar o sol a esconder-se nas dunas. Os seus dedos soavam tanto que deixou escorregar o lápis, o qual rebolou pelo chão por força da grande agitação do vento. Duas incongruências presenciadas: o sol tornar-se mais forte ao desaparecer e o vento soprar mais forte numa zona de baixa altitude. Era isto que ela queria - dificuldades. Pois só quem as vive é que vive realmente. E ali, sem ser necessário encontrar algo mais vivo que ela, acabou por encontrar vida em si mesma. Por vezes, vamos tão longe procurar o que está guardado bem dentro de nós.
Uma folha mostrou-se nua, possibilitando o visionar dos seus feixes de seiva. Era verde e possuía pintas escuras. Uma mulher despiu-se, possibilitando o visionar das suas veias. Era escura e possuía olhos pretos. Misturaram-se no mar. A mulher e a folha. A primeira nadava e a segunda boiava. A água do mar é salgada porque a mulher soltou lágrimas nela e possui ondas porque a folha rodopiava nela também, originando pequenos tufões. É tão fácil desvendar mistérios quando sentimos em nós o pólen da imaginação. Sem dúvidas não haveria lugar para a fantasia. Por sua vez, sem esta não haveria espaço para os sonhos. Seria tudo exacto e recto. Não gostava de viver assim. Por isso, incertezas ainda bem que existem.
Sílvia Gonçalves
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Se para ti sou selvagem E espinhos me cravam o coração, Estás a viver uma miragem Que não é futuro, é recordação.
Se o tempo para ti não avança E preferes colar-te ao chão, Forma um novo modo de esperança Que te preencha o coração.
Esperas mesmo conhecer A alma de tudo o que ficou. O difícil é viver Com o grito que ainda não soou.
Percorro em bicos de pés o mundo. Eu sei onde quero ir. Sei navegar no azul profundo E sei como fazer-te sorrir.
Foi num aeroporto. As nuvens apresentavam-se estendidas pelo chão, estavam reflectidas. As pessoas caminhavam normalmente. Ora levantando um pé, ora levantando o outro. Nem reparavam estar a pisar o céu. Foi aí que constatei que para além dos pisa papeis, existem pisa nuvens.
Sempre que corriam nuvens desprotegidas pelo céu eu sabia da proximidade de mais uma tempestade. Não era necessário o bramido das aves, o baile das folhas no ar, nem sequer as variações da temperatura. Quando, um dia, fui ao mar, ousando navegar como um marinheiro, desbravou-se um aglomerado de nuvens escuras, pelas velocidades dos ventos. Por essa altura, rodopiava no ar um pedaço de tecido cor de trigo. Não fosse eu realista e acreditaria ter provido da roupa de alguma sereia. Mas, voltando às nuvens… ninguém pode duvidar da sua efemeridade. As nuvens são os fracassos da vida. Não passam de gotas de desilusão que, um dia, acabam por escorrer, morrendo. Todavia, têm sempre a opção de purificar, lavando. Só quero realmente dizer que as nuvens que nos assombram os olhos são reversíveis. Nunca duram para sempre.
Era uma vez uma margem de um rio. E era uma vez a outra margem. Uma chamava-se “margem esquerda” e outra chamava-se “margem direita”. Viviam os dias olhando uma para a outra. Até onde uma se estendia a outra também. Se o rio dobra-se quase poderíamos dizer que eram simétricas. As aves que pousavam nas árvores de uma iam contar os segredos desta à outra, pousando também nos ramos das suas árvores. Todos os seus dias se contemplavam mutuamente com uma inocência tão natural que quase nem se apercebiam dos sentimentos que as levavam a olharem-se sempre e sempre. Havia dias em que entre ambas se erguia um nevoeiro intenso, ocultando os seus contornos. Mas continuavam a ser margens que bebiam do mesmo rio. Continuava a existir o sentimento de existência cumulativo a cada uma. Todavia, o que realmente as separava era o rio. Esta entrave de água tão extensa como a capacidade de amar. Não fossem as aves animais solidários e elas desconheceriam os murmúrios uma da outra. Por muito que tentassem gritar, o som da terra não se propagava por entre as águas. E por muita vontade que os peixes tivessem em ajudar, estes nada podiam contra o poder do chão. O Homem criou as pontes para se unir com outros homens, não para possibilitar a união das margens! Mas a Natureza não dorme e, assim, criou as aves. De tanto se olharem directamente, as margens sabiam de cor os traços uma da outra, sabiam as feições do relevo, sabiam a altura dos montes e sabiam onde se acumulada a chuva depois de cair. E, nesta atmosfera, quase sem notar, apaixonaram-se. Tão intensamente como intensa era a água que as separava. Na vida dos Homens também existe amores que se contemplam uma vida inteira mas estão separados por uma força equivalente à de um rio, nunca chegando a juntar-se. Serão as pessoas margens e os acontecimentos extensões de água?
Sílvia Gonçalves
domingo, 11 de julho de 2010
Há um batimento que sinto Quando o meu olhar te alcança. Há também pequenos tremores Que sozinhos se propagam. Vivo num labirinto Onde o meu coração se lança, Descobrindo todos os sabores Que me purificam e lavam.
Desde o dia em que ao mundo viemos e abrimos as mãos para abraçar, há muito para sentir, muito para descobrir, há mais para além do que somos. Vivemos e desgastamos, e é este o nosso sentido. Todos os pedacinhos de nós, de coisas que utilizámos vão parar a uma lixeira. Esta alberga todos os pedaços de nós. Não se faz esquisita, tudo aceitando e de toda a gente. As lixeiras são o retrato mais fiel da origem da vida. Tudo o que nelas se encontra pode voltar a ser usado, pode voltar a viver. Também nós, por muito usados e esmoídos que estejamos, podemos abrir os olhos a um novo amanhecer, podemos construir um novo viver. Esta é a forma mais extraordinária de nos regenerarmos: reconhecer as impurezas, descartá-las e seguir rumo a um novo sol, que nasce todos os dias da mesma forma, mas é contemplado variavelmente.
Há certas alturas em que a Natureza me altera. O meu temperamento oscila. Como, por exempo, quando chove. Pareço não ser quem era, há algo em mim que morre. Sinto grande melancolia. Tudo fica cinzento e os odores desse dia são amargos, trá-los o vento. Sinto que a Terra me corre no corpo. Mudo o que sinto de lés a lés. Anseio correr o mundo mas nem sequer mexo os pés. E quando a chuva, por fim, grita só me apetece chorar. Há mesmo dias tristes em que não queria acordar. Quando um trovão ecoa bem alto, lá no céu a minha alma anda à toa. Se, porventura, o sol brilha a minha pele radia, os meus gestos ficam largos, aproveito bem o dia e os humores não andam alterados. Sinto o enorme poder da Natureza em mim. Penso que me daria bem na selva. Seria livre e apenas escreveria pondo de lado todas as burocracias, enfim. Que feliz me sentiria!
Já me incorporei na peça. Vesti o meu papel. Emparelhei contigo. Decorei o cenário. Tirei a roupa do armário. Já interpreto o que digo. Sou um retrato fiel. Quero que alguém me despeça.
Prefiro viver o real. Que também veste disfarces. Que tem máscaras veladas. Que procura aclamação. Sou dona do meu guião. Não conto as minhas passadas. Dou abraços e não enlaces. Sou personagem leal.
A poesia é das coisas que me faz mais feliz. Porém, a vida não é apenas feita de palavras, de versos e melodias. A vida é feita de pessoas! Por ti e para ti, Catarina Morais, mais conhecida por Michelle (Ca)Brito, a marine:
Existe uma dor adormecida Que é ar, suspiro e respirar E dá voltas em torno da vida Aguardando um suave desabrochar.
Eis que te vejo surgir, Lento e sem compassos de espera, Num murmúrio de quem não quis fugir, Optando construir uma nova era.
Relembro as palavras que ficaram E mesmo as que ficaram por dizer. Um tempo onde os amores findaram E tudo o que vivemos só me fez sofrer.
É pó, sal, terra e luz Tudo o que de nós parece restar. Só uma coisa ainda me seduz Que para mim vou guardar.
São frases soltas que ficam. Os momentos, esses, hei-de apagar Pois eles de mim abdicam. Não é hora de recordar.
No fundo, tudo são desejos De um passado que um dia sonhei. Ficaram abraços e beijos, Outrora ficou alguém que verdadeiramente amei!
Só às vezes vale a pena. Só às vezes ouço a tua voz. Só às vezes importa referir. Mudar o palco de cena. Santos e heróis estão entre nós. Só às vezes importa sorrir.
Só às vezes a música pára. Só às vezes decoro o refrão. Só às vezes sei como agir. Olhar-te cara a cara, Pegar-te na mão. Só às vezes posso permitir.
Só às vezes o que resta volta. Só às vezes me sei recompor. Só às vezes procuro fugir. Nem tudo me faz falta. Escorro lágrimas e suor. Só às vezes me apetece partir.
Suaves e cintilantes copos de cristal pousam nos teus finos e delicados dedos. Não és tu que neles pegas. Eles pousam em ti. Vestidos de seda contornados a renda deslizam-te pelo corpo. Não és tu quem os veste. Eles caem sobre ti. O teu leito incita-te a dormir. Não és tu que nele te deitas, é ele que se chega junto a ti. Nasceste para ser princesa. Nada fazes. Tudo está destinado a envolver-te e a desvendar os teus mais velados segredos. Há um misticismo em ti. Em tudo que pensas. Em tudo que és. Apenas uma coisa em ti é movida pelo teu ser, sem precisar de vontades alheias: a tua voz. Cantas arrepiantes melodias que fazem ondear a água do pequeno lago do teu jardim. A maior força dos homens contínua a ser a sua voz!
Recordar não é necessariamente mau. Se fizer da realidade um livro de recordações vou permanecer enclausurada numa gaveta coberta de pó e marcada pela velhice. Inovar a cada dia não é necessariamente bom. Restam dúvidas que nos levam a questionar o nosso fundamento existencial. Às vezes custa, outras não. Ressaltar paredes e becos faz crescer. Arranhar as nuvens com a ponta dos dedos dos pés faz rir. Fazer cascatas de choro faz florescer uma nova floresta. Escorrer sangue numa pedra limpa não é sujar, é purificar. Tocar harmonias românticas faz contorcer os corações e estremecer a alma. Todas estas sensações são reversíveis e passam a cada segundo no diapositivo da nossa curta e melada vida. O que, com gozo, gosto de fazer é deixar as fotos de lado e usar gravações. Não é que o som e o movimento me fascinem incomensuravelmente. Mas é pelo prazer de fazer batota com a vida que teima em fragmentar todos os momentos quando o que quero é que neles permaneça a continuidade. Vida, não és só tu que brincas!
Esta noite sonhei um passado que julgava apagado. Foi tão doce e real. Será que a fortaleza de um sentimento forte nunca se pode desvanecer? Quando abri os olhos, desejei contornar a situação com um breve suspiro. Será que para sempre haverá pedacinhos de ti em mim? Talvez a teia que me tenhas lançado ainda não se tenha descosido na plenitude. Sei que em ti já não existo. Talvez se os nossos olhares se cruzassem não fosse bem assim. Mas…ainda bem que não cruzam. Não quero voltar a sentir o peso de te apagar. E a sensação do teu abraço ainda persiste em mim. Talvez para sempre exista no meu ser fragmentos do ser que foste e já não és. Mas não quero saber. A sensação até é boa. Pena ser irreal. Mas, para me consolar, sinto orgulho no que em mim ainda existe. É sinal que não foi em vão tudo o que, um dia, no mais sentido abraço, te prometi. “E uma lágrima cai, a cada beijo teu. Esta noite sou, dona do céu. Eu não sei quem te perdeu.”
Neste comboio da vida Onde, por vezes, fico abarcada Tentando descobrir a saída Ou, apenas, a carruagem adequada Viajo incessantemente, Numa procura imensa De alegria que dure para sempre E de luz perpétua e intensa.
Se embato sem querer Foi o meu destino que prometeu Numa circunstância eleger Um comboio como o meu. Desde que o choque não abale Quem comigo possa trazer O meu destino que fale Justificando esse embater.
Ele acariciava a tela com o pincel embebido na tinta mais doce que tinha. Espreitava, pelo lado do vaso posto na varanda, a sua paisagem. Era uma paisagem humana que se movia ao som do bater suave do coração. O retrato deste jovem pintor era uma mão a alisar fios de cabelo castanho que percorriam um rosto inquieto. Era a altura de mudar de cor. Embebeu o pincel mais fino de todos na tinta mais escura. Objectivo: demarcar a escuridão com simplicidade. O retrato movia-se o que dificultava a tarefa do pintor. Mas cada gesto era retido na sua mente a fim de ganhar cor. Talvez outra. Começou a chover repentinamente e o vaso agitou-se com o vento e a tarefa do pintor ficou ainda mais complexa. Mas enquanto o que pintava permanecesse naquela outra varanda, do prédio em frente, o exercício da arte era possível. Porque não pintar as formas torcidas da varanda juntamente com as plantas que a envolvem? Passava tudo por uma questão de inspiração. Não era a varanda, inerte e fácil por isso, que interessava ao pintor. Também não era a dona do cabelo que lhe chamava a atenção. Era apenas aquele cabelo castanho e aquela mão pálida que de tão delicada chegava a meter dó. Ele queria pintar a realidade. Para quê imaginar uma rapariga loira de cabelo brilhante e mãos carnudas? Não era essa imagem que ele via. Pintou até os dedos desprenderem o cabelo e a mão cair sobre o peito. O cabelo completamente livre misturou-se com os tons do pôr do sol que atravessavam a avenida e adquiriu a mais bela cor de sempre. Porém, já era tarde e a rapariga entrou no quarto deixando um rasto de cortinas a esvoaçar. Mas o pintor reteve aquela cor indefinida de cabelo misturado com o pôr do sol na memória e, misturando todas as cores que tinha, terminou a sua tela. Uma tela distinta das demais……….porque pintou a realidade.
Numa noite, dançamos apertados Passos descompassados, Era pura paixão. E, sorrindo, Fizeste parar o tempo, Num doce movimento Que quase me emocionou.
E dançamos pela noite fora Até a hora de ir embora Como um real casal. E tu viste, o meu ser mais profundo Deste-me a volta ao mundo E apertaste-me junto a ti.
E as ondas, Quebraram nessa noite. O teu corpo dói-te Por estar tão junto ao meu. Paraste. Apertaste-me contra o peito Fizeste de mim teu leito Mas que momento especial.
E um beijo solta-se de qualquer jeito Foi um beijo imperfeito Não era para acontecer. E assim, calados olhamos a lua Com a alma toda nua. Foi o nosso viver.
Este é o único poema que se encontra neste meu espaço que não foi por mim criado. Coloquei-o aqui por ser dos meus sonetos predilectos e por ter um significado especial. Desfrutem de um exemplar de verdadeira poesia..
Amor é um fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente, É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
O sentimento de amor vivido por muitas pessoas reparte-se por gavetas fechadas e papeis rasgados. Se não fosse o dia dos namorados, muita da gestão desse amor nunca seria feita. Nunca iriam parar aos sítios certos os momentos adequados e jamais os carinhos e afectos rumariam até aos locais ajustados.
Para muitas dessas pessoas, esse dia é uma forma de recorrerem à mesma loja de sempre, a fim de comprar as mesmas rosas de sempre, com o mesmo aroma de sempre e envoltas no mesmo tom de sempre.
Regra geral, o dia de S.Valentim obriga os casais a embrulhar o desprezo num papel apelativo, tentando simular o romance perfeito e esperado.
As horas passam, os dias passam, os anos passam…tudo parece saturar.
Mas porquê que o amadurecimento não parece ser compatível com amor? Porquê que o coração não se enruga com o entrar na velhice? Porquê que as pessoas não permitem uma proporção de amor por entre anos e anos de convivência?
Não faz sentido alguém deixar os elogios à porta, pensando que as pessoas já os adivinham. Eles são sempre necessários. E não vale evitar o perdão com a desculpa de que os erros e trapalhadas já se tornaram hábito.
Não faz sentido algum parar de olhar nos olhos como outrora, ansiando a mais doida proeza. Não devia ser permitido parar de sonhar, olhando todas as situações como previsíveis e, por isso, despidas de magia.
Devia ser proibido o “há tanto tempo que já te conheci” e obrigatório o “ainda bem que te conheci”.
Tudo bem que com o passar do tempo o coração pode deixar de ser vermelho. É normal que aconteça. Mas porquê que ele não assume várias cores? Cada experiência passada assumia um tom e, assim, o amor não se perdia e ia-se enriquecendo cada vez mais.
E também já não faz sentido pensar que o amor tem de ser vivido à beira mar numa noite de luar. O amor pode e deve ser sabedoria mais que aventura, para poder sobreviver no tempo e enraizar - se no coração.
Quanto àquele tipo de amor, se é que este pode ser categorizado, que só se alimenta na noite, na cama, tenho sérias restrições perante ele. Pois a cama pode assumir o estatuto de um palco, onde apenas se finge, não se vivendo a plenitude do amor. Curiosamente, a cama até está mais elevada relativamente ao chão, tal como um palco.
Para concluir, penso que o amor é como o humor: só aparece com o passar dos anos. Só depois de muito se aprender é que estes têm lugar na nossa vida.
Amar tem de ser mais do que dar e receber. Amar talvez apenas seja ser e ser-se, de modo sincero.