sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ser estranho

Se abro ou fecho a porta? Não sei.
Os suaves recantos que estilhaçam a cada pisada tua são feitos de vidro. Pareces pisá-los como quem se abraça na areia dourada do mar.
Tu não tens noção da realidade. Não pareces saber que o que hoje desperdiças podes não mais alcançar no amanhã.
Se me deito à noite é porque sei que há um dia pronto para amanhecer horas mais tarde. Tu nem nisso reflectes.
Deves ser um corpo celeste com vida porque deste mundo nada sabes. Chegaste a mim por entre as estrelas ou caíste no Oceano? Podes revelar.
Eu não preciso esconder-me. Sou humana! Mas tu não.
Uma vez observei-te a pintar. Pintaste uma galáxia perdida. Não sabias que eu estava lá mas deixaste cair o pincel. Também sentes a presença humana? Afinal de onde vieste?
Um dia hei-de saltar uma vedação só para ver se me salvas, se despertas dessa bola que te envolve e vens viver o mesmo mundo que eu.
Se me salvares ficaremos vivos, se não o fizeres pelo menos vai lá depois. Limpa-me os ferimentos, nem que seja com as tuas lágrimas. Isto é, se chorares porque nunca te vi transmitir emoções.

Sílvia Gonçalves